No rasto matricial do conde D. Pedro de Caminha (III) – Dom Diego de Soutomaior, comendador na Ordem de Alcántara. Interessado propalador de uma nobreza de quatro costados

Sede conventual da Ordem de Alcántara (Alcántara)

A idade – rondaria os 65 anos – e o desgaste de duas décadas na vanguarda dos destinos da família, levariam a condessa velha de Caminha D. Teresa de Távora, em Fevereiro de 1506[1], a passar o testemunho ao filho D. Diego, que desde então e até 1543, será o pilar da casa de Soutomaior. O primogénito D. Álvaro fora morto numa rixa em Valladolid[2]; D. Fernando sucumbira em Santiago, no seguimento de uma curta estadia nas Índias ocidentais ao tempo de D. Cristóbal Colón[3]; D. Alfonso duelara ingloriamente a honra contra o “chevalier Bayard”, durante as guerras de Itália[4]. Todos morreram novos, entre os 25 e os 28 anos. Apenas D. Cristóbal ultrapassaria em pouco os 30 anos de idade, quando foi assassinado pelos “Tainos”, na ilha de San Juan (actualmente Puerto Rico), para onde partira em 1509 acompanhando D. Diego Colón[5]. Com excepção de D. Álvaro – pai de um varão e três raparigas, todos menores, que ficaram a cargo da mãe, D. Inés de Monroy -, nenhum outro deixou geração conhecida, legítima ou ilegítima. D. Constança a mais nova das duas irmãs, casada com o alcaide da fortaleza de Monte de Boi (Baiona), morrera também com pouco mais de 25 anos, ao que parece sem geração[6]. D. Maior pelo contrário, lograra descendência tanto do primeiro casamento com o porteiro-mor do rei D. João II[7] – que a deixara viúva nos primeiros anos do século XVI -, como do segundo, com Diego Reynoso[8]. Será mesmo este cunhado quem acudirá a D. Diego, com um empréstimo de 250 000 maravedis para uma viagem à Flandres, denotando uma estreita ligação entre aqueles irmãos, bem diferente das tensões que existiam com a cunhada D. Inés de Monroy, contra quem se juntara a família na disputa pela titularidade da casa.

Esta proximidade é relevante, atendendo ao facto de que alguns dos ramos descendentes de D. Maior e Diego Reynoso, ostentaram as armas e o apelido de Zúñiga, o que poderia indiciar positivamente a genealogia materna do conde de Caminha, fosse ela conhecida por tradição, informada por Pedro Madruga, ou até arranjada por D. Diego de Soutomaior. Note-se que para o seu ingresso na Ordem de Alcántara em 1510, D. Diego foi inevitavelmente obrigado a provar “(…) ser fidalgo de sangue a foro de España (…), com escudo de armas, de creditação fidedigna, também pelas quatro linhas, e ser descendente de casa solar, tanto ele, como seu pai, mãe e avós, sem que nenhum deles tivesse praticado ofícios vis, mecânicos ou industriais”, conforme atesta Fernando Gonzalez-Doria, tratando da Ordem Militar de Alcántara, no seu Diccionario Heráldico y Nobiliario de los Reinos de España.[9] E neste particular, duas hipóteses teria: ou sua avó paterna era nobre e o caso se resolvia com facilidade, ou não o sendo haveria que ultrapassar o problema…

Zúñiga e Reynoso (A Guarda-Tui)

Zúñiga e Reynoso (A Guarda-Tui)

Acontece que o próprio Diego Reynoso era um Zúñiga! Chamava-se a mãe Leonor de Zúñiga y Avellaneda e casara com o senhor de Autillo de Campos, Juan de Reynoso y Herrera[10]. Prova-o uma pedra de armas existente no mosteiro beneditino d’A Guarda (Tui) – fundado pelos netos do casal Diego-Maior – exibindo um escudo partido de Zúñiga e Reynoso[11]

Ozores, Soutomaior, Zúñiga e Reynoso (A Guarda-Tui)

Ozores, Soutomaior, Zúñiga e Reynoso (A Guarda-Tui)

Desses netos, todos filhos de D. Ana Páez de Soutomaior, e do senhor de Teanes (Salvaterra de Miño), Vasco Ozores, cumpre destacar o sucessor, García Ozores de Soutomaior – pelo facto de ter casado em 1540 com D. Aldonza, filha natural daquele D. Diego de Soutomaior[12] -, e D. Maria Ozores de Soutomaior – casada com o senhor de Goián e da torre d’A Guarda (Tui), Gomes Correa, progenitores da casa de Priegue, cuja expressão máxima se ergue ainda hoje, no monumental exemplo do Pazo de La Pastora, em Vigo. É precisamente nos apelidos e brasões deste ramo que mais exemplos se encontram da composição “Zúñiga / Soutomaior”.

Sequeiros, Soutomaior, Zúñiga e Silva. Sobre o todo, Ozores.

Sequeiros, Soutomaior, Zúñiga e Silva. Sobre o todo, Ozores.
(Pazo de La Pastora – Vigo)

Recebido o Hábito de Alcántara, D. Diego de Soutomaior passou a residir no convento-sede da Ordem, onde em 1514 assina uma escritura de doação em favor do cunhado Reynoso e da irmã D. Maior[13]. Em Dezembro de 1523[14], Carlos V nomeou-o comendador da Batundeira, cuja jurisdição se situava na região de Ourense, na Galiza, mas as rendas em Badajoz. Nesse meio tempo viajou à Flandres e eventualmente às Índias ocidentais, neste último caso para reaver os bens deixados por D. Cristóbal de Soutomaior na ilha de San Juan[15]. No ano seguinte foi testemunha num pedido de D. Diego Colón para resgatar o testamento do primeiro Almirante das Índias, visando questões de herança[16]. Simultaneamente procurava concertar as nefastas consequências do acto matricida do sobrinho D. Pedro, insistindo junto de Carlos V para que os bens da casa – entretanto confiscados – fossem restituídos, conseguindo-o finalmente em Agosto de 1525[17]. Entre 1526 e 1531 governou o Partido de la Serena (Badajoz), e desde então sucedeu a D. Martin Rol[18] no patronato do hospital de Santa Elena – que aquele fundara – e na comenda do castelo de Almorchón e vila de Cabeza del Buey (Badajoz)[19].

A meia distância na estrada que ligava Puebla de Alcocer a Belalcázar, ficava Cabeza del Buey. Constituíam aquelas vilas, as jurisdições fundamentais do condado que desde 1518 tinha como titulares D. Francisco de Sotomayor y Portugal e sua mulher D. Teresa de Zúñiga Guzmán y Manrique. O comendador de Almorchón terá sido visita frequente, no palácio de Belalcázar, durante largos anos. Por sua instância ali residiram a tempos, alguns dos seus familiares próximos, como o “matricida” D. Pedro de Soutomaior, ou a filha deste, D. Maria, na qual nomeia, em 1543, a fundação do morgadio de Soutomaior, por escritura feita precisamente em Belalcázar[20]. Talvez o acto decorresse na sala mourisca (“Cámara Morisca”) – feita ao tempo de D. Elvira de Zúñiga, bisavó do conde -, em cujos estuques mudéjares sobressaíam escudos de armas de contornos semelhantes aos da entrada do castelo galego da linhagem. Mero acaso, coincidência na época de fabrico, ou eventual inspiração de um no outro?

Castelo de Soutomaior

Castelo de Soutomaior

Castelo de Belalcázar

Castelo de Belalcázar

Em 1533 a condessa D. Teresa tornou-se herdeira do tio, D. Álvaro de Zúñiga y Guzmán, duque de Béjar – protector de Francesillo de Zúñiga, o célebre bufão de Carlos V que fez mofa de certa inconfidência cortesã, afirmando sinuosamente que “(…) D. Diego de Soutomaior parecia hijo bastardo de Colón el almirante de Indias (…)”[21]. Aproximavam os estados de Béjar e Miranda del Castañar, não só a vizinhança geográfica, como também a genealogia comum dos Zúñiga. A vaga memória de uma tia-avó do conde de Miranda que casara e vivera na Galiza[22], aliada à história próxima dos Soutomaior galegos com a casa de Santa Marta, de que aquela foi senhora, poderá ter influenciado – natural ou intencionalmente – a já referida afirmação de D. Diego de Soutomaior[23].

Dona Maria Vidal – a hipótese do século XVII

Se ao tempo do comendador de Almorchón (primeiro terço do século XVI), nem ele nem o cronista Vasco da Ponte conheciam com rigor a verdade dos factos, o que dizer da divergente opinião de frei Felipe de la Gándara, cronista geral da Galiza, autor de “Armas i Triunfos Hechos Heroicos de los hijos de Galicia? Nessa obra magna datada de 1662, tratando da genealogia dos Soutomaior, o padre agostinho questionou implicitamente a existência de D. Constanza de Zúñiga, escrevendo que D. Pedro Álvares, conde de Caminha, fora “(…) un hijo natural de Hernando Yañez de Sotomaior, avido en Doña Maria Vidal, hija de Juan Vidal de Santiago (…)”[24]. E nesse autêntico tratado de genealogia galega com quase setecentas páginas, só menciona um outro “Vidal de Santiago”, de nome Pedro – já referenciado no “Livro de Linhagens do Conde D. Pedro” -, que viveu em finais do século XIII e foi o progenitor dos Moscoso da casa de Altamira![25] Não citando a fonte, desconhece-se onde o cronista buscou tal informação; assim como se não conhece qualquer outro pormenor acerca de Juan Vidal.

No entanto e por estranho que pareça, Felipe de la Gándara pode ter sido o primeiro a insinuar – conscientemente ou não -, a origem materna de Pedro Madruga, entre as famílias das “Rias Baixas” que retiravam do mar o sustento, comerciando na rota levantina. Baseando-se em Elisa Ferreira Priegue, investigadora especializada no comércio marítimo medieval na Galiza, José Armas Castro publicou em “Pontevedra en los siglos XII a XV”, um quadro com movimentos documentados de barcos pontevedreses, entre a Galiza e o Mediterrâneo. Encabeça a listagem diacrónica um Domingo Vidal, que entre 1393 e 1397 era patrão da nau “Santiago”, viajando com frequência para Valencia. Alguns anos mais tarde, entre 1410 e 1414, é um Pedro Vidal que predomina na documentação, desaparecendo em seguida a família, em detrimento dos Falcón e Cruu, dominantes nas décadas de vinte e trinta[26].

Pode assim conjecturar-se que – a ter existido -, Juan Vidal pudesse ter pertencido a esta família, activa em Pontevedra ou Santiago na transição dos séculos XIV-XV, o que também sustenta uma Maria Vidal, nascida à volta de 1415, como hipotética mãe de Pedro Madruga.


[1] Data de 6 de Fevereiro de 1506 o último documento que se conhece, assinado presencialmente por D. Teresa de Távora, em Salamanca, fazendo prova dos filhos que teve com o conde de Caminha, no âmbito do processo de cedência e transmissão de bens na pessoa de seu filho D. Diego de Soutomaior.

[2] Ponte, V. (2008), pp. 150.

[3] Requejo, Á. C. (24 de Novembro de 2011). Carta de Teresa de Távora a Juana la Loca. Obtido em 6 de Agosto de 2013, de Colonianos: http://www.cristobal-colon.org/carta-de-teresa-de-tavora-a-juana-la-loca-por-angel-de-requejo/

[4] Identificação de D. Alfonso de Soutomaior: https://fr.wikipedia.org/wiki/Alonzo_de_Soto_Mayor; Reconto do duelo e morte de D. Alfonso de Soutomaior: http://www.gutenberg.org/files/28455/28455-h/28455-h.htm#page145

[5] Cota González, R. (2008). Cristóbal Colón, Pontevedra, Caminha. Pontevedra, Galicia: PMMNexc, pp. 63-75. Texto integral em http://www.cristobal-colon.org/biografia-de-cristobal-de-sotomayor/

[6] Na escritura de cedência de bens, feita por D. Constança a seu irmão D. Fernando de Soutomaior, com data de 1495, é expressamente referido “(…) Garci Méndez de Sotomayor, alcaide de la dicha fortaleza de Monte de Boy por el rey y la reina (…)”, como seu marido. Em 1506 (vidé, No rasto matricial do conde D. Pedro de Caminha (II), nota 28), D. Teresa de Távora indica aquela filha como já falecida. Muitas genealogias fazem-na casada apenas, ou também, com Diego Sarmiento de Soutomaior, sr. de Vale de Achas e Petán, o que é erro, uma vez que Diego Sarmiento casou com Maria Xuárez da Ponte.

[7] São Payo, L. M. (1999). Sottomayor Mui Nobre. (L. M. São Payo, Ed.) Vila Real, Portugal, pp. 86-88.

[8] Sottomayor, D. N. (2000). Os Sottomayor na História de Portugal. (D. N. Sottomayor, Ed.) Lisboa, Portugal, pp. 50-52; Enciclopédia Galega, Casa de Sotomayor.

[9] Gonzalez-Doria, F. (1994). Diccionario Heráldico y Nobiliario de los Reinos de España. Madrid, España: Editorial Bitacora, pp. 840.

[10] Informações retiradas de http://autillodecampos.blogspot.pt/

[11] Gonzalez-Doria, F. (1994), pp. 716. Armas de Reinoso: Em campo de prata, uma cruz florenciada de vermelho; bordadura de quinze peças enxaquetadas de prata e vermelho. Imagens retiradas de http://www.galiciasuroeste.info/varios/benedictinas.htm; http://www.galiciasuroeste.info/varios/calle_do_medio.htm

[12] Pericacho, J. G., Acevedo, F. N., & Salazar, M. V. (1794), pp. 28 verso.

[13] Ibidem, pp. 32.

[14] Aguilera, M. F. (1914). Carlos de Gante. Los viajes del emperador (A. M. Carabias Torres & C. Möller, Edits.). Obtido em 20 de Junho de 2013, de Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes: http://www.cervantesvirtual.com/bib/historia/CarlosV/1523.shtml

[15] Cota González, R. (2008), pp. 72-73.

[16] Conchouso, F. A. (13 de Dezembro de 2012). Una família y dos linajes. Obtido em 14 de Dezembro de 2012, de Colonianos: http://www.cristobal-colon.org/una-familia-dos-linajes/

[17] Pericacho, J. G., Acevedo, F. N., & Salazar, M. V. (1794), pp. 43 verso.

[18] Molinero Merchán, J. A. (2011). Palacio renacentista de Belalcázar: humanismo del tercer Duque de Béjar. Córdoba, España: Servicio de Publicaciones Universidad de Córdoba, pp. 66, 72. D. Martin Rol – cuja pedra de armas em Almorchón denuncia origem Zúñiga (Rol, Zúñiga, Zúñiga e Hurtado de Mendoza) – foi tutor dos filhos do conde de Belalcázar, D. Alfonso de Sotomayor, tendo sido quem concretizou o casamento do primogénito D. Francisco com D. Teresa de Zúñiga, futuros duques de Béjar.

[19] Aguilera, M. F. (1914), http://www.cervantesvirtual.com/bib/historia/CarlosV/1526.shtml; (…) /1527.shtml; (…) /1528.shtml.

Naharro, V. S. & González de Murillo, J. L. (1992) História de Cabeza del Buey. Obtido em 12 de Julho de 2013, de Cabeza del Buey: cuna de Muñoz Torrero: http://alcazaba.unex.es/~ajtorgar/#dieciseis

[20] Pericacho, J. G., Acevedo, F. N., & Salazar, M. V. (1794), pp. 4-19 verso.

[21] Cota González, R. (2008), pp. 117-118.

[22] Excepção feita à linha de Monterrei, não se conhece entre os Zúñiga outro caso de um membro da linhagem se ter passado à Galiza.

[23] Vide, No rasto matricial do conde D. Pedro de Caminha (II), nota 6.

[24] Gándara, F. d. (1662). Armas y Triunfos. Hechos Heróicos de los hijos de Galicia. (P. d. Val, Ed.) Madrid, España: Fac-simile; Editorial Orbigo, A Coruña, pp. 411.

[25] Ibidem, pp. 478-479.