“No soy el primer Almirante de mi familia” (4) – Alfonso Jofre Tenorio, XX Almirante de la Mar (1312-40)

 

Almirantes de la Mar na casa de Tenorio

Almirantes de la Mar na casa de Tenorio

Coincidem os autores desde meados do século XVII, altura em que o padre Felipe de la Gandara na Armas y Triunfos de los hijos de Galicia, afirmou com orgulho regional a naturalidade galega do almirante Jofre Tenorio. Acrescentou ainda que o mesmo viera ao mundo a pouco mais de uma légua da vila de Pontevedra, entre as paredes do castelo de Tenorio, senhorio que então pertencia à sua linhagem. (Gandara, 1662, pp. 278-279)

Dois séculos mais tarde, Fernando Fulgosio na Crónica de la província de Pontevedra, integrada na Crónica General de España publicada em 1867, foi um pouco mais longe, sugerindo inclusive que “(…) Jofre debió de aprender a ser buen marino en la cercana costa y hermosísimas rias, unas á otras inmediatas”. (Fulgosio, 1867, pp. 60)

Cronologicamente o nascimento de Alfonso Jofre Tenorio deve situar-se, com poucas reservas, em finais da década de oitenta do século XIII. Deduzimo-lo através da opinião de José Manuel Calderón Ortega, na sua história d’El Almirantazgo de Castilla, na qual considera a data de 1312 para a eventual atribuição do cargo, baseando-se para tal no texto de uma ordenação de 1318, da responsabilidade do então já almirante Alfonso Jofre Tenorio. (Calderón Ortega, 2003, pp. 35)

Os Anales eclesiásticos y seculares de la Muy Noble y Muy Leal Ciudad de Sevilla, de Diego Ortiz de Zúñiga, por seu turno, mencionam pela primeira vez a figura do almirante Tenorio no ano de 1316, comandando a frota de Castilla em incursões anti-muçulmanas ao longo da costa do norte de África. (Ortiz de Zúñiga, 1795, pp. 55)

Assumindo que a nomeação para o referido cargo não terá ocorrido antes da maioridade plena (25 anos), esta cronologia aponta, no mínimo, para os anos entre 1287 e 1291 para aquele nascimento. Aldonza Jofre de Loaisa, a mãe, era natural de Sevilla e filha de um cavaleiro de Aragón, muito beneficiado nos repartimentos posteriores a 1248, ano da conquista daquela cidade andaluz. É admissível pois, que Aldonza casasse com Diego Alfonso Tenorio, filho de um dos muitos cavaleiros galegos que também participaram nessa campanha militar, e por intermédio desses mesmos repartimentos acabaram por se estabelecer na Andalucia.

Esta informação, associada ao facto do castelo de Tenorio ter sido confirmado por Sancho IV de Castilla, em 1290, na casa dos Benavides, seus primos, e do almirante ter vivido grande parte da sua vida no sul andaluz, onde recebeu de Alfonso XI, em 1333, o senhorio da aldeia costeira de Moguer, torna passível que se lance alguma desconfiança acerca da naturalidade galega de Alfonso Jofre Tenorio. Contudo dois documentos deste último soberano, datados de 1328 e 1329, referem Jofre Tenorio como encomendeiro dos mosteiros beneditinos de San Xoán de Poio e San Salvador de Lerez, demonstrando-se deste modo a sua presença e interesses na região de Pontevedra.

Arca tumular da família de Alfonso Jofre Tenorio (Santa Clara de Moguer)

Arca tumular da família de Alfonso Jofre Tenorio (Santa Clara de Moguer)

Políticamente a casa de Tenorio alinhava com Sancho IV, e mais adiante com sua viúva, Maria de Molina, regente durante a menoridade de Fernando IV e Alfonso XI. Provam-no o homicídio do almirante Paio Gomes Charino às mãos de Rui Peres de Tenorio, quando aquele se passou para o bando opositor à regente, conforme abordado neste blog em “No soy el primer Almirante de mi família” (II). Morto Fernando IV em 1312, Maria de Molina foi de novo chamada à regência, acabando por partilhar com os infantes Pedro e Juan, a tutoria do novo rei de Castilla, Alfonso XI, no momento com pouco mais de um ano de idade! Assim se compreende que então fosse de novo escolhido um homem daquela linhagem, para um cargo de confiança e da maior relevância, como o era o de “Almirante de la Mar”, cuja base de acção se centrava em Sevilla.

Comandando as acções de mar, há notícias de Jofre Tenorio nas campanhas lançadas pelo infante Pedro contra os mouros de Granada, entre 1315 e 1319, ano em que cessaram as hostilidades por morte na Vega, do seu promotor e do infante Juan, seu tio, que o acompanhava. Maria de Molina ficou então, como única tutora do rei, morrendo dois anos mais tarde. Ainda o seu cadáver não arrefecia, e já três candidatos a tutor se digladiavam, atraídos pelo poder que aquela condição oferecia: Felipe, irmão de Pedro; Juan “el Tuerto”, seu primo co-irmão, da casa de Haro; e Juan Manuel, um segundo primo, filho de um irmão de Alfonso X. Posicionou-se o primeiro em Sevilla, o segundo em Zamora, e o último foi chamado a Córdoba.

Castilla viveu então um período conturbado, marcado pelos enfrentamentos destes três partidos, sofrendo a população, obrigada, as agruras e o esforço dos impostos nos respectivos domínios territoriais. Sevilla não foi excepção sob o jugo de Felipe, e a instâncias de um alvará real conseguido pelo senhor de Benavides e Tenorio – seu primo Juan Alfonso, que o infante Pedro nomeara porteiro-maior de León -, pôde Jofre Tenorio tomar o poder naquela cidade, aproveitando uma ausência do infante Felipe.

Mandava o rei que o almirante governasse Sevilla em seu nome, até que o jovem soberano deixasse de estar sob tutela e alí se pudesse deslocar. Devidamente apoiado, Alfonso Jofre Tenorio encabeçou então, no ano de 1325, o levantamento de Sevilla contra Felipe, expulsando da cidade os partidários daquele, entre os quais se encontravam os Guzmán de Sanlúcar de Barrameda, os Ponce de León de Marchena, os Lacerda e o alcaide-maior Fernández de Saavedra!

Meses depois Alfonso XI atingiu a maioridade, passando de imediato a desenvolver acções de pacificação do reino, entre as quais se conta a entrega de Sevilla aos cidadãos e concelho, e a confirmação das suas isenções e privilégios. Para lá se deslocou em 1327, conforme prometera, passando desde logo à organização de nova campanha contra os muçulmanos do reino de Granada.

Calderón Ortega recolhe com sabedoria, a importância do comando de Jofre Tenorio para o sucesso  dassas acções militares, cabendo-lhe o bloqueio das comunicações marítimas entre España e o norte de África. Oportuna por diversas vezes, a intervenção do almirante permitiu que Alfonso XI conseguisse, por fim, montar cerco à praça de Gibraltar em Julho de 1333, no que resultou um vantajoso acordo de tréguas por quatro anos com o sultão de Granada, negociado em Agosto, revisto logo em Outubro e assinado definitivamente em Fez, a 26 de Fevereiro de 1334. (Calderón Ortega, 2003, pp. 36-38)

Santa Clara de Moguer

Santa Clara de Moguer

Como recompensa pelos “(…) buenos servicios, que feicisteis al rey don Fernando, nuestro padre, que Dios perdone, e feicistes e facedes a nos de cada dia (…)” recebeu Alfonso Jofre Tenorio, no rescaldo de Gibraltar, o senhorio da aldeia de Moguer, porto natural de mar no golfo de Cádiz, perto da fronteira portuguesa. Nos anos consequentes, juntamente com Elvira de Velasco, sua mulher, fundaria duas instituições religiosas naquela povoação: o convento do Corpus Christi, e o mosteiro de Santa Clara.

Começavam entretanto as hostilidades do rei português Afonso IV, indignado pela forma como Alfonso XI se dedicava à sua amante – a sevilhana Leonor de Guzmán – ignorando e prejudicando a família legítima nascida do casamento com sua filha Maria de Portugal. O conflito estalou na Extremadura com o cerco a Badajoz, e logo se estendeu à Andalucia. No entender de Calderón Ortega, esta curta guerra que durou entre meados de 1336 e finais de 1339, foi essencialmente naval. Badajoz foi recuperada pelas hostes andaluzas e preparou-se logo uma armada de navios e galeras, capaz para a demanda da costa portuguesa. (Calderón Ortega, 2003, pp. 39)

Terminado o Inverno, trinta galeras portuguesas partiram de Lisboa, rumo ao sul, comandadas pelo almirante Manuel Pessanha, e cerca de quarenta fizeram-se ao mar, desde Sevilla, com Jofre Tenorio à cabeça. Uma violenta tempestade impediu o recontro, regressando ambas as armadas à base, com severas perdas e avarias, obrigando a prolongadas reparações. No começo do verão, voltaram a fazer-se ao mar, consideravelmente reduzidas em cerca de dez unidades cada. Encontraram-se ao largo do cabo de São Vicente, tendo essa batalha naval sido registada pelos cronistas de ambas as coroas, e analisada já no século XX pelo professor Armando Saturnino Monteiro, capitão-de-mar-e-guerra da armada portuguesa.

Segundo revela no seu trabalho de abordagem às Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa, este abalizado investigador considera que a vitória castelhana aconteceu, por conta de certa estratégia de combate, já anteriormente utilizada por Jofre Tenorio, com êxito, contra os muçulmanos. Referia-se por certo ao ano de 1328, e à derrota infligida à frota conjunta de vinte e duas galeras preparada pelos sultões de Granada e Marrocos.

“Atacando impetuosamente, as galés portuguesas conseguiram ao fim de pouco tempo render nove das contrárias. Depois houve qualquer coisa que fez inverter o rumo dos acontecimentos. Uma hipótese a considerar é que tenham chegado as naus castelhanas (a armada era composta por galés, e naus para apoio logístico) que tenham começado a abalroar algumas das nossas galés que estavam atracadas às inimigas, afundando umas tantas, e que tenham aferrado outras, lançando-lhes para dentro, do alto dos seus castelos, grande quantidade de pedras, barras de ferro, setas e virotões”. (Saturnino Monteiro, 1989, pp.  )

O saldo final revelou-se favorável ao almirante Tenorio: seis galés afundadas e oito capturadas, entre as quais a nave de Pessanha. Dias mais tarde, em clima de apoteose, vencedores e prisioneiros subiam o Guadalquivir em direcção a Sevilla, onde o próprio rei fez questão de os receber e felicitar. Ortiz de Zúñiga com brio pátrio, refere mesmo que o estandarte português pendia do barco de Manuel Pessanha, que assim o trazia arrastando pela água! (Ortiz de Zúñiga, 1795, pp. 92)

Junto de Alfonso XI testemunharam o acontecimento, o senescal de França e o arcebispo de Reims, embaixadores daquele reino, assim como o bispo de Rodes, delegado da Santa Sé, encarregados de procurar a paz entre os reinos ibéricos. Conseguiram-no em Dezembro de 1339, data em que Alfonso XI assinou tréguas, sendo que as últimas acções desta guerra levadas a cabo por Jofre Tenorio, foram o ataque a Castro-Marim, a destruição dos arsenais de Tavira, e o saque às vilas de Faro e Loulé.

Grosso modo, a referida trégua permitiu a Castilla enfrentar nova ameaça muçulmana, que levaria no mar à batalha de Algeciras, e por terra à célebre batalha do Salado, ocorridas respectivamente em Abril e Outubro de 1340. Revelou-se Algeciras a ultima acção de Jofre Tenorio, ingloriamente morto numa acção suicida, enfrentando sessenta galeras e mais de duas centenas e meia de navios diversos, comandando a frota de Castilla, que mais não ascendia do que a trinta e duas galeras e seis naus! A isso o moveu o orgulho de casta, quando por um revés estratégico, se viu confrontado com as dúvidas de Alfonso XI acerca do valor e perícia do seu almirantado.

Batalha naval de Algeciras (4 de Abril de 1340)

Batalha naval de Algeciras (4 de Abril de 1340)

Morreu Alfonso Jofre Tenorio nesse 4 de Abril de 1340. Afundada no mediterrâneo ou presa dos infiéis, igualmente se desfez a frota de Castilla. Fazendo fé em Calderón Ortega, os feitos e sacrifício final do almirante Tenorio, tornaram-no desde então, o “más famoso de los Almirantes de Castilla”. (Calderón Ortega, 2003, pp. 40-43)

Cerca de duas décadas mais tarde, a casa de Tenorio, junto com a de Benavides, passava por manda testamentária, do supracitado primo Juan Alfonso, ao sobrinho daquele, Mem Rodrigues de Biedma, homem poderoso, herói no Salado (1340), e derrotado em Guadix contra Aragón (1362), preso no rescaldo de Najera ao lado de Enrique de Trastâmara (1367), e logo vencedor nos campos de Montiel (1369), que marcaram o fim da guerra civil castelhana. Os relevantes serviços prestados ao novo rei Enrique, valeram-lhe a mercê do senhorio de Santisteban del Puerto e a confirmação de todos os restantes estados que já detinha: Biedma, Benavides e Tenorio. Este último ficaria reservado como dote matrimonial da filha Elvira Mendes, casada já depois da sua morte, ocorrida em 1381.

A aliança com a vizinha casa de Soutomaior, somada à ligação desta aos negócios do mar, motivou o casamento de Elvira Mendes com o jovem Pedro Álvares de Soutomaior, decorreriam os anos finais do século XIV. Provam-no o nome e currículo de alguns dos cunhados: Álvaro Perez de Guzmán, Diego Hurtado de Mendoza e Alfonso Enríquez, almirantes de Castilla entre 1391 e 1429. Dos três, Alfonso Philippot escolheu o do meio para compor os seus cinco almirantes. Mas da mesma forma que o Mendoza, se aparentavam o Guzmán e o Enríquez, sendo que cada um deles representava as respectivas linhagens (Mendoza, Guzmán e Enríquez), e nunca a casa de Soutomaior.

Através do casamento daquela Elvira Mendes com Pedro Álvares, avô do conde de Caminha, entrou o senhorio de Tenorio na linhagem dos Soutomaior, tornando-se inclusivamente um dos cenários que posteriormente, mais fama granjearam ao bastardo de Soutomaior. Como facilmente se deduz, Pedro Madruga, enquanto simples habitante da região de Pontevedra, por certo seria conhecedor da história e fama de Alfonso Jofre, cujos feitos foram contados por longo tempo nas rias galegas. Por outro lado, enquanto herdeiro da casa de Tenorio, inevitavelmente teria aquele almirante por seu familiar.