No rasto matricial do conde D. Pedro de Caminha (IV) – Constança Gonçalves, «vil» filha de alfaiate; e João Gonçalves, o outro irmão do conde de Caminha

 

João Gonçalves de Miranda Soutomaior
João Gonçalves de Miranda Soutomaior

Constança Gonçalves – “vil” filha de alfaiate, pilar da tese Pedro Madruga – Cristóbal Colón

A súmula dos factos anteriores, por demasiado incertos, permite a formulação da seguinte hipótese: sendo eventualmente a mãe de Pedro Madruga de condição social inferior, a linhagem socorreu-se da proximidade mantida com os Zúñiga, para forjar um parentesco pouco esclarecido, quiçá aceite tacitamente por ambas as partes por se não poder comprovar, dada a extensão no tempo e a morte dos protagonistas. Esse logro “garantiu” a nobreza de quatro costados aos seus descendentes, assim como identificou a política de alianças dos Soutomaior de Tui e Pontevedra, com os seus congéneres de Puebla de Alcocer e Belalcázar.

Com base neste pressuposto, e não se cumprindo o mesmo em D. Constanza de Zúñiga, ou D. Maria Vidal, merece ponderosa análise a proposta de Alfonso Philippot Abeledo, enunciada em “La Identidad de Cristóbal Colón”. Nessa tese – originalmente publicada em 1991, e derivada dos fundamentos de Celso García de la Riega sobre a origem galega do almirante das Índias -, o autor documenta na Pontevedra de 1435, uma Constança Gonçalves, que mediante cruzamento com outras actas notariais contemporâneas, seria filha do casal Afonso de Soutelo e Branca Colón. Teria como irmãos um João Gonçalves, pintor, e uma Branca Soutelo, casada com um marinheiro, todos residentes naquela vila costeira.[1] Atendendo às informações constantes dos referidos documentos, Constança Gonçalves seria filha de homem-livre que exercia o ofício de alfaiate, considerado “vil” (porque manual), segundo os conceitos sociais da época e na óptica privilegiada do clero e da nobreza. O próprio almirante Colón comprova o preconceito, quando em 1503, num desabafo escrito aos Reis Católicos na ilha de Jamaica, se lamenta que “(…) agora fasta los sastres suplican por descubrir[2].

A ponte com D. Pedro Álvares de Soutomaior estabelece-a Alfonso Philippot, não só pelo óbvio do nome próprio – igual ao mencionado nas fontes primárias, e o mesmo com que foi baptizada a filha mais nova do conde de Caminha, ao arrepio de qualquer tradição na linhagem -, como também através do apelido “Soutelo”, dado que Fernan Yañez de Soutomaior entregou em testamento a guarda e criação do filho bastardo, ao dominicano frei Esteban de Soutelo. Apoia-se o autor na opinião de José Maria Font, extraída do Diccionario de Historia de España, na qual se regista ser “bastante general en los fueros municipales la atribución de ésta guarda a los parientes más próximos del menor”.[3]

Assim sendo e respeitando cronologias, é possível deduzir um estreito parentesco entre o alfaiate Afonso e o mendicante Esteban – eventualmente irmãos -, ambos apelidados “de Soutelo”. E com este referente geográfico ocorrem dois únicos lugares na Galiza meridional, em territórios que no século XV foram dominados pela casa de Soutomaior: São Vicente de Soutelo (entre Tui e Salvaterra) e Soutelo de Montes (a Nordeste de Pontevedra, na chamada “Terra de Montes”). Ditando a lógica que deste último sobressaísse maioritariamente o topónimo “de Montes” (frei Pedro de Montes, prior em São Domingos de Pontevedra, a título de exemplo), é de apontar com maior probabilidade o primeiro, como origem destes “Soutelo”, até porque Santo Estevão é orago do vizinho lugar de Budiño, e poderá ter servido de inspiração na escolha do nome de baptismo do futuro dominicano. Pela proximidade, o convento de Tui foi o destino de Esteban. Já Afonso poderá ter trilhado o caminho da concorrida Pontevedra, quiçá ao abrigo dos Soutomaior, e ali casado dentro do seu estrato social.

De facto na primeira metade do século XV, a família de Branca Colón aparece associada à confraria de São João que agrupava carpinteiros, tanoeiros e pedreiros, ofícios de cariz acentuadamente manual. Atendendo aos casamentos de certos elementos femininos do clã – com mareantes e marinheiros da vila -, pode intuir-se a prática das artes de mar por algum dos varões. Contudo na metade final da centúria já é possível documentar mareantes e pequenos armadores de apelido “Colón”, o que não evita que a família pertencesse ao vasto grupo que via negado o acesso à oligarquia do concelho.[4]

Definindo-se então “Soutelo” como indicador de progénie, estima-se “Gonçalves” como patronímico, pois foi usado por João e Constança, dois dos filhos referenciados do casal Soutelo-Colón. Atreveu-se Philippot neste particular, ao relacioná-los com os “Gonçalves Soutelo”, uma linhagem de pequena nobreza terra-tenente que proliferava na região a sul de Ourense. Esticou um pouco mais a corda, na ânsia de invocar o parentesco destes com a condessa de Santa Marta[5], procurando cumprir as premissas do já referido texto de Vasco da Ponte[6]. No entanto o bom senso é, neste caso, demolidor, não se podendo aceitar, à luz da época, que o modesto alfaiate Soutelo fosse oriundo da mesma cepa de Nuno, “senhor da terra de Molgas e regedor de Allariz”, ou de D. Sancha, “senhora de Sandim, Xocin e Vilariño”.

João Gonçalves – o outro irmão do conde de Caminha

Estará porventura eivada de atrevimento semelhante – ou não -, a introdução neste ponto de um outro João Gonçalves, há séculos referenciado em Portugal, como familiar próximo de D. Pedro Álvares, conde de Caminha. O mais antigo documento em que é citado, acrescido dos apelidos “de Miranda” e “Soutomaior”, remonta ao ano de 1561. Trata-se de uma carta de brasão de armas concedida a Diogo de Sá, filho de Fernão de Sá Soutomaior, morador em Coimbra, e neto daquele primeiro e de sua legítima esposa D. Filipa de Sá “das geracõns e linhagens dos soutomaiores e saas que nestes Reinos sam fidalguos de cota darmas”.[7]

Carta de Brasão de Diogo de Sá (1561)
Carta de Brasão de Diogo de Sá (1561)

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No rasto matricial do conde D. Pedro de Caminha (III) – Dom Diego de Soutomaior, comendador na Ordem de Alcántara. Interessado propalador de uma nobreza de quatro costados

Sede conventual da Ordem de Alcántara (Alcántara)

A idade – rondaria os 65 anos – e o desgaste de duas décadas na vanguarda dos destinos da família, levariam a condessa velha de Caminha D. Teresa de Távora, em Fevereiro de 1506[1], a passar o testemunho ao filho D. Diego, que desde então e até 1543, será o pilar da casa de Soutomaior. O primogénito D. Álvaro fora morto numa rixa em Valladolid[2]; D. Fernando sucumbira em Santiago, no seguimento de uma curta estadia nas Índias ocidentais ao tempo de D. Cristóbal Colón[3]; D. Alfonso duelara ingloriamente a honra contra o “chevalier Bayard”, durante as guerras de Itália[4]. Todos morreram novos, entre os 25 e os 28 anos. Apenas D. Cristóbal ultrapassaria em pouco os 30 anos de idade, quando foi assassinado pelos “Tainos”, na ilha de San Juan (actualmente Puerto Rico), para onde partira em 1509 acompanhando D. Diego Colón[5]. Com excepção de D. Álvaro – pai de um varão e três raparigas, todos menores, que ficaram a cargo da mãe, D. Inés de Monroy -, nenhum outro deixou geração conhecida, legítima ou ilegítima. D. Constança a mais nova das duas irmãs, casada com o alcaide da fortaleza de Monte de Boi (Baiona), morrera também com pouco mais de 25 anos, ao que parece sem geração[6]. D. Maior pelo contrário, lograra descendência tanto do primeiro casamento com o porteiro-mor do rei D. João II[7] – que a deixara viúva nos primeiros anos do século XVI -, como do segundo, com Diego Reynoso[8]. Será mesmo este cunhado quem acudirá a D. Diego, com um empréstimo de 250 000 maravedis para uma viagem à Flandres, denotando uma estreita ligação entre aqueles irmãos, bem diferente das tensões que existiam com a cunhada D. Inés de Monroy, contra quem se juntara a família na disputa pela titularidade da casa.

Esta proximidade é relevante, atendendo ao facto de que alguns dos ramos descendentes de D. Maior e Diego Reynoso, ostentaram as armas e o apelido de Zúñiga, o que poderia indiciar positivamente a genealogia materna do conde de Caminha, fosse ela conhecida por tradição, informada por Pedro Madruga, ou até arranjada por D. Diego de Soutomaior. Note-se que para o seu ingresso na Ordem de Alcántara em 1510, D. Diego foi inevitavelmente obrigado a provar “(…) ser fidalgo de sangue a foro de España (…), com escudo de armas, de creditação fidedigna, também pelas quatro linhas, e ser descendente de casa solar, tanto ele, como seu pai, mãe e avós, sem que nenhum deles tivesse praticado ofícios vis, mecânicos ou industriais”, conforme atesta Fernando Gonzalez-Doria, tratando da Ordem Militar de Alcántara, no seu Diccionario Heráldico y Nobiliario de los Reinos de España.[9] E neste particular, duas hipóteses teria: ou sua avó paterna era nobre e o caso se resolvia com facilidade, ou não o sendo haveria que ultrapassar o problema…

Zúñiga e Reynoso (A Guarda-Tui)
Zúñiga e Reynoso (A Guarda-Tui)

Acontece que o próprio Diego Reynoso era um Zúñiga! Chamava-se a mãe Leonor de Zúñiga y Avellaneda e casara com o senhor de Autillo de Campos, Juan de Reynoso y Herrera[10]. Prova-o uma pedra de armas existente no mosteiro beneditino d’A Guarda (Tui) – fundado pelos netos do casal Diego-Maior – exibindo um escudo partido de Zúñiga e Reynoso[11]

Ozores, Soutomaior, Zúñiga e Reynoso (A Guarda-Tui)
Ozores, Soutomaior, Zúñiga e Reynoso (A Guarda-Tui)

Desses netos, todos filhos de D. Ana Páez de Soutomaior, e do senhor de Teanes (Salvaterra de Miño), Vasco Ozores, cumpre destacar o sucessor, García Ozores de Soutomaior – pelo facto de ter casado em 1540 com D. Aldonza, filha natural daquele D. Diego de Soutomaior[12] -, e D. Maria Ozores de Soutomaior – casada com o senhor de Goián e da torre d’A Guarda (Tui), Gomes Correa, progenitores da casa de Priegue, cuja expressão máxima se ergue ainda hoje, no monumental exemplo do Pazo de La Pastora, em Vigo. É precisamente nos apelidos e brasões deste ramo que mais exemplos se encontram da composição “Zúñiga / Soutomaior”.

Sequeiros, Soutomaior, Zúñiga e Silva. Sobre o todo, Ozores.
Sequeiros, Soutomaior, Zúñiga e Silva. Sobre o todo, Ozores.
(Pazo de La Pastora – Vigo)

Recebido o Hábito de Alcántara, D. Diego de Soutomaior passou a residir no convento-sede da Ordem, onde em 1514 assina uma escritura de doação em favor do cunhado Reynoso e da irmã D. Maior[13]. Em Dezembro de 1523[14], Carlos V nomeou-o comendador da Batundeira, cuja jurisdição se situava na região de Ourense, na Galiza, mas as rendas em Badajoz. Nesse meio tempo viajou à Flandres e eventualmente às Índias ocidentais, neste último caso para reaver os bens deixados por D. Cristóbal de Soutomaior na ilha de San Juan[15]. No ano seguinte foi testemunha num pedido de D. Diego Colón para resgatar o testamento do primeiro Almirante das Índias, visando questões de herança[16]. Simultaneamente procurava concertar as nefastas consequências do acto matricida do sobrinho D. Pedro, insistindo junto de Carlos V para que os bens da casa – entretanto confiscados – fossem restituídos, conseguindo-o finalmente em Agosto de 1525[17]. Entre 1526 e 1531 governou o Partido de la Serena (Badajoz), e desde então sucedeu a D. Martin Rol[18] no patronato do hospital de Santa Elena – que aquele fundara – e na comenda do castelo de Almorchón e vila de Cabeza del Buey (Badajoz)[19].

A meia distância na estrada que ligava Puebla de Alcocer a Belalcázar, ficava Cabeza del Buey. Constituíam aquelas vilas, as jurisdições fundamentais do condado que desde 1518 tinha como titulares D. Francisco de Sotomayor y Portugal e sua mulher D. Teresa de Zúñiga Guzmán y Manrique. O comendador de Almorchón terá sido visita frequente, no palácio de Belalcázar, durante largos anos. Por sua instância ali residiram a tempos, alguns dos seus familiares próximos, como o “matricida” D. Pedro de Soutomaior, ou a filha deste, D. Maria, na qual nomeia, em 1543, a fundação do morgadio de Soutomaior, por escritura feita precisamente em Belalcázar[20]. Talvez o acto decorresse na sala mourisca (“Cámara Morisca”) – feita ao tempo de D. Elvira de Zúñiga, bisavó do conde -, em cujos estuques mudéjares sobressaíam escudos de armas de contornos semelhantes aos da entrada do castelo galego da linhagem. Mero acaso, coincidência na época de fabrico, ou eventual inspiração de um no outro?

Castelo de Soutomaior
Castelo de Soutomaior
Castelo de Belalcázar
Castelo de Belalcázar

Em 1533 a condessa D. Teresa tornou-se herdeira do tio, D. Álvaro de Zúñiga y Guzmán, duque de Béjar – protector de Francesillo de Zúñiga, o célebre bufão de Carlos V que fez mofa de certa inconfidência cortesã, afirmando sinuosamente que “(…) D. Diego de Soutomaior parecia hijo bastardo de Colón el almirante de Indias (…)”[21]. Aproximavam os estados de Béjar e Miranda del Castañar, não só a vizinhança geográfica, como também a genealogia comum dos Zúñiga. A vaga memória de uma tia-avó do conde de Miranda que casara e vivera na Galiza[22], aliada à história próxima dos Soutomaior galegos com a casa de Santa Marta, de que aquela foi senhora, poderá ter influenciado – natural ou intencionalmente – a já referida afirmação de D. Diego de Soutomaior[23].

Dona Maria Vidal – a hipótese do século XVII

Se ao tempo do comendador de Almorchón (primeiro terço do século XVI), nem ele nem o cronista Vasco da Ponte conheciam com rigor a verdade dos factos, o que dizer da divergente opinião de frei Felipe de la Gándara, cronista geral da Galiza, autor de “Armas i Triunfos Hechos Heroicos de los hijos de Galicia? Nessa obra magna datada de 1662, tratando da genealogia dos Soutomaior, o padre agostinho questionou implicitamente a existência de D. Constanza de Zúñiga, escrevendo que D. Pedro Álvares, conde de Caminha, fora “(…) un hijo natural de Hernando Yañez de Sotomaior, avido en Doña Maria Vidal, hija de Juan Vidal de Santiago (…)”[24]. E nesse autêntico tratado de genealogia galega com quase setecentas páginas, só menciona um outro “Vidal de Santiago”, de nome Pedro – já referenciado no “Livro de Linhagens do Conde D. Pedro” -, que viveu em finais do século XIII e foi o progenitor dos Moscoso da casa de Altamira![25] Não citando a fonte, desconhece-se onde o cronista buscou tal informação; assim como se não conhece qualquer outro pormenor acerca de Juan Vidal.

No entanto e por estranho que pareça, Felipe de la Gándara pode ter sido o primeiro a insinuar – conscientemente ou não -, a origem materna de Pedro Madruga, entre as famílias das “Rias Baixas” que retiravam do mar o sustento, comerciando na rota levantina. Baseando-se em Elisa Ferreira Priegue, investigadora especializada no comércio marítimo medieval na Galiza, José Armas Castro publicou em “Pontevedra en los siglos XII a XV”, um quadro com movimentos documentados de barcos pontevedreses, entre a Galiza e o Mediterrâneo. Encabeça a listagem diacrónica um Domingo Vidal, que entre 1393 e 1397 era patrão da nau “Santiago”, viajando com frequência para Valencia. Alguns anos mais tarde, entre 1410 e 1414, é um Pedro Vidal que predomina na documentação, desaparecendo em seguida a família, em detrimento dos Falcón e Cruu, dominantes nas décadas de vinte e trinta[26].

Pode assim conjecturar-se que – a ter existido -, Juan Vidal pudesse ter pertencido a esta família, activa em Pontevedra ou Santiago na transição dos séculos XIV-XV, o que também sustenta uma Maria Vidal, nascida à volta de 1415, como hipotética mãe de Pedro Madruga.


[1] Data de 6 de Fevereiro de 1506 o último documento que se conhece, assinado presencialmente por D. Teresa de Távora, em Salamanca, fazendo prova dos filhos que teve com o conde de Caminha, no âmbito do processo de cedência e transmissão de bens na pessoa de seu filho D. Diego de Soutomaior.

[2] Ponte, V. (2008), pp. 150.

[3] Requejo, Á. C. (24 de Novembro de 2011). Carta de Teresa de Távora a Juana la Loca. Obtido em 6 de Agosto de 2013, de Colonianos: http://www.cristobal-colon.org/carta-de-teresa-de-tavora-a-juana-la-loca-por-angel-de-requejo/

[4] Identificação de D. Alfonso de Soutomaior: https://fr.wikipedia.org/wiki/Alonzo_de_Soto_Mayor; Reconto do duelo e morte de D. Alfonso de Soutomaior: http://www.gutenberg.org/files/28455/28455-h/28455-h.htm#page145

[5] Cota González, R. (2008). Cristóbal Colón, Pontevedra, Caminha. Pontevedra, Galicia: PMMNexc, pp. 63-75. Texto integral em http://www.cristobal-colon.org/biografia-de-cristobal-de-sotomayor/

[6] Na escritura de cedência de bens, feita por D. Constança a seu irmão D. Fernando de Soutomaior, com data de 1495, é expressamente referido “(…) Garci Méndez de Sotomayor, alcaide de la dicha fortaleza de Monte de Boy por el rey y la reina (…)”, como seu marido. Em 1506 (vidé, No rasto matricial do conde D. Pedro de Caminha (II), nota 28), D. Teresa de Távora indica aquela filha como já falecida. Muitas genealogias fazem-na casada apenas, ou também, com Diego Sarmiento de Soutomaior, sr. de Vale de Achas e Petán, o que é erro, uma vez que Diego Sarmiento casou com Maria Xuárez da Ponte.

[7] São Payo, L. M. (1999). Sottomayor Mui Nobre. (L. M. São Payo, Ed.) Vila Real, Portugal, pp. 86-88.

[8] Sottomayor, D. N. (2000). Os Sottomayor na História de Portugal. (D. N. Sottomayor, Ed.) Lisboa, Portugal, pp. 50-52; Enciclopédia Galega, Casa de Sotomayor.

[9] Gonzalez-Doria, F. (1994). Diccionario Heráldico y Nobiliario de los Reinos de España. Madrid, España: Editorial Bitacora, pp. 840.

[10] Informações retiradas de http://autillodecampos.blogspot.pt/

[11] Gonzalez-Doria, F. (1994), pp. 716. Armas de Reinoso: Em campo de prata, uma cruz florenciada de vermelho; bordadura de quinze peças enxaquetadas de prata e vermelho. Imagens retiradas de http://www.galiciasuroeste.info/varios/benedictinas.htm; http://www.galiciasuroeste.info/varios/calle_do_medio.htm

[12] Pericacho, J. G., Acevedo, F. N., & Salazar, M. V. (1794), pp. 28 verso.

[13] Ibidem, pp. 32.

[14] Aguilera, M. F. (1914). Carlos de Gante. Los viajes del emperador (A. M. Carabias Torres & C. Möller, Edits.). Obtido em 20 de Junho de 2013, de Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes: http://www.cervantesvirtual.com/bib/historia/CarlosV/1523.shtml

[15] Cota González, R. (2008), pp. 72-73.

[16] Conchouso, F. A. (13 de Dezembro de 2012). Una família y dos linajes. Obtido em 14 de Dezembro de 2012, de Colonianos: http://www.cristobal-colon.org/una-familia-dos-linajes/

[17] Pericacho, J. G., Acevedo, F. N., & Salazar, M. V. (1794), pp. 43 verso.

[18] Molinero Merchán, J. A. (2011). Palacio renacentista de Belalcázar: humanismo del tercer Duque de Béjar. Córdoba, España: Servicio de Publicaciones Universidad de Córdoba, pp. 66, 72. D. Martin Rol – cuja pedra de armas em Almorchón denuncia origem Zúñiga (Rol, Zúñiga, Zúñiga e Hurtado de Mendoza) – foi tutor dos filhos do conde de Belalcázar, D. Alfonso de Sotomayor, tendo sido quem concretizou o casamento do primogénito D. Francisco com D. Teresa de Zúñiga, futuros duques de Béjar.

[19] Aguilera, M. F. (1914), http://www.cervantesvirtual.com/bib/historia/CarlosV/1526.shtml; (…) /1527.shtml; (…) /1528.shtml.

Naharro, V. S. & González de Murillo, J. L. (1992) História de Cabeza del Buey. Obtido em 12 de Julho de 2013, de Cabeza del Buey: cuna de Muñoz Torrero: http://alcazaba.unex.es/~ajtorgar/#dieciseis

[20] Pericacho, J. G., Acevedo, F. N., & Salazar, M. V. (1794), pp. 4-19 verso.

[21] Cota González, R. (2008), pp. 117-118.

[22] Excepção feita à linha de Monterrei, não se conhece entre os Zúñiga outro caso de um membro da linhagem se ter passado à Galiza.

[23] Vide, No rasto matricial do conde D. Pedro de Caminha (II), nota 6.

[24] Gándara, F. d. (1662). Armas y Triunfos. Hechos Heróicos de los hijos de Galicia. (P. d. Val, Ed.) Madrid, España: Fac-simile; Editorial Orbigo, A Coruña, pp. 411.

[25] Ibidem, pp. 478-479.

No rasto matricial do conde D. Pedro de Caminha (II) – Dona Constanza de Zúñiga. Uma figura inconsistente, entre Monterrei e Miranda del Castañar

Sepulcro de Inés Alvares (Santo Domingo de Tui)
Sepulcro de Inés Alvares (Santo Domingo de Tui)

Desconhece-se em absoluto, a localização do sepulcro em que estaria dormindo o sono eterno, a dita D. Constanza de Zúñiga, conforme asseverava o neto D. Álvaro. Existe de facto em Santo Domingo de Tui, uma arca tumular de certa dama, jazendo ao lado de um Soutomaior; deverá no entanto tratar-se de Inês Álvares, mãe do bispo D. Juan Fernandes de Soutomaior, conforme levanta Marta Cendon Fernandez[1] e sustenta Suso Vila[2]. A própria redacção testamental de 1491 é suspeita. Além de ser demasiado sucinta para o objectivo, limita-se a dois tópicos fundamentais: a indicação do local para o futuro enterramento do testador e dos ascendentes mais próximos (avô, tia e pai), concluindo com a detalhada informação referente a D. Constanza de Zúñiga; e a nomeação da mulher, D. Inés Enríquez de Monroy, como administradora da sua fazenda e tutora do previsível herdeiro, ainda por nascer. Excluindo uma quantia que manda dar para ajuda da guerra de Granada – para onde partiria em breve -, nada mais! Como ambos (nobreza dos quatro costados, e a posse efectiva dos bens pela viúva do titular da casa) foram temas judicialmente vitais para a linhagem, entre as décadas finais do século XV e as primeiras do seguinte, é pertinente questionar a credibilidade do documento. Convém recordar que D. Pedro de Soutomaior, o filho desta D. Inés, para além do crime de matricídio porque foi condenado em 1518, ficou conhecido na história como um dos maiores falsários do seu tempo[3]! E que nos pleitos pela casa de Soutomaior ocorridos entre os séculos XVI e XVIII, se deram como falsos vários documentos, entre os quais um testamento de D. Maior de Soutomaior, datado de 1482[4], originalmente apresentado num litígio que opôs D. Inés e seu filho, aos restantes herdeiros encabeçados por D. Diego de Soutomaior[5].

Estranha-se de igual forma que, enquanto legítimo titular e cabeça de linhagem, D. Álvaro pretenda sepultar-se em São Domingos de Tui, apartado dos antecessores, aos quais destina uma posteridade bem mais relevante, na capela do bispo Soutomaior, no interior da sé-catedral do bispado. E ainda causa maior admiração, pretender sepultá-los a todos – se o bispo não autorizasse a manda anterior -, junto da sua ilegítima avó. Além do mais, tanto Fernan Yañez como a irmã D. Maior há muito que jaziam no panteão da família, em São Domingos de Pontevedra! Exactamente na mesma capela na qual, ainda hoje, se pode ver a laje sepulcral onde o próprio D. Álvaro acabou sepultado, poucos anos mais tarde, sem que se respeitassem aquelas suas vontades!

Outro exemplo duvidoso data de 1510, aquando da recolha de testemunhos para a já referida admissão à Ordem de Alcântara de D. Diego de Soutomaior – processo em que era condição necessária a apresentação de nobreza dos quatro costados. Uma das testemunhas arroladas detalhou inclusive que conhecera “(…) Doña Constancia de Çuñiga, que hera hermana de Juan de Çuñiga el bermejo de Valladolid (…)”, nos oito anos que servira como pajem na alcáçova de Soutomaior![6]

O mesmo D. Diego, cerca de duas décadas mais tarde – já comendador de Almorchón e Cabeza del Buey naquela ordem -, referenciava a sua presumida avó, como “(…) hija de don Diego Lopez de Çuñiga (…) e de una señora de la casa de Avellanedo la qual [Fernan Yañez] traxo a Galizia y alli faleçio”, logo após ter distorcido os factos para encobrir a bastardia paterna, escrevendo que Álvaro e Fernan Yañez de Soutomaior eram irmãos, que este não tivera descendência legítima, e que seu pai era filho do primeiro![7]

Simultaneamente o cronista Vasco da Ponte, nos anos 30 do século XVI, documentava na “Relación dalgunhas casas e liñaxes do Reino de Galiza”, como então era vista a origem de Pedro Álvares de Soutomaior: “(…) bastardo natural que o tivera seu pai Fernán Eáns dunha irmã, curmá ou sobriña (…)” de D. Teresa de Zúñiga, condessa de Santa Marta. Com um parágrafo de permeio, logo identifica a dita condessa, como tia do Soutomaior.[8] Faço notar, como o cronista associa indiscriminadamente, as noções de “filho bastardo” e “filho natural” que, já se viu, encerrarem diferentes conceitos legais e sociais.

Baseados nestas fontes primárias, procuraram os investigadores – em vão -, encontrar a referida D. Constanza de Zúñiga, que deveria ser filha de um D. Diego López de Zúñiga e de uma senhora Avellaneda, ter um irmão D. Juan de Zúñiga, referência em Valladolid, e ser irmã, co-irmã ou sobrinha dos Zúñiga de Monterrei. Nenhuma genealogia conseguiu, com os dados disponíveis até hoje, cumprir todas estas premissas.

Castelo de Monterrei (Ourense)
Castelo de Monterrei (Ourense)

Uma hipótese próxima do ideal, pode situá-la como filha natural de D. Diego López de Zúñiga “o moço”, havida numa senhora da casa de Avellaneda e, como tal, irmã natural de D. Juan, visconde de Monterrei, e das condessas de Santa Marta e Ribadeo. A ser verdade, Pedro Madruga seria, de facto, sobrinho destes últimos, sustentando-se assim, a afirmação de Vasco da Ponte. A história parece apoiar esta probabilidade. Sabe-se pela “Crónica del Halconero de Juan II”, Pedro Carrillo de Huete, que em 1432 Fernan Yañez de Soutomaior participou no cerco e tomada do castelo de Alba de Aliste, no âmbito das lutas contra os infantes de Aragón[9]. Pelo manuscrito de Baltasar de Zúñiga y Fonseca, um “Sumário da descendência dos Condes de Monterrey” escrito em começos do século XVII, igualmente se conhece que foi D. Diego López de Zúñiga “o moço”, residente em Zamora, quem comandou a referida acção militar por incumbência do rei Juan II de Castilla[10]. Além disso, este Zúñiga de Monterrei esteve viúvo de D. Elvira de Biedma algum tempo antes de 1418, ano em que casou pela segunda vez com D. Constanza Barba, cabendo a possibilidade de ter uma filha natural nascida nesse hiato de viuvez. Desse modo, os factos históricos colocam Fernan Yañez em Zamora, com acesso privilegiado à casa dos Zúñiga, num ano em que uma suposta filha natural de D. Diego poderia ter entre 16 e 18 anos, viabilizando o nascimento de Pedro Madruga entre os anos de 1432 e 1433.

Contudo nenhuma fonte primária, ou as genealogias posteriores, confirmam a existência dessa filha natural do primeiro Zúñiga que senhoreou Monterrei. Além disso, sabe-se através de documentação relevada por José García Oro no texto de “La Nobleza Gallega en la Baja Edad Media”, que Álvaro de Soutomaior se dirigia a D. Juan de Zúñiga y Biedma, de Monterrei, com o tratamento de “mi Señor tio”[11]. Radicava o parentesco, curiosamente, entre duas Elviras da casa de Biedma: a avó do Soutomaior[12], e a mãe do Zúñiga. De forma semelhante haveria Álvaro de tratar com D. Teresa, irmã daquele, resultando que a Pedro Madruga – irmão de Álvaro -, bastava ser filho de Fernan Yañez de Soutomaior, para também ser visto na sua época como sobrinho da condessa de Santa Marta. Insinua Salazar y Castro, que por essa ofensa (concubinato com uma filha já de si natural?), os de Monterrei terão morto o Soutomaior[13], observando por outro lado e noutra parte, à margem da cópia que fez ao testamento já mencionado de D. Álvaro de Soutomaior, que “(…) en la linea de M.te Rey, no ai tal Dª Constanza: a lo menos lexitima”. A estreita aliança que ambas as linhagens mantiveram nos anos subsequentes, não sustenta porém, esta “acusação” do genealogista. No mesmo documento em que afirma que “(…) por estos amores le mataron” Salazar y Castro dá por avó de Pedro Madruga a segunda mulher do senhor de Monterrei, D. Constanza Barba, não se escusando a reservas, ao admitir “(…) esta creo que fue su madre, que sé no fue bastarda.”

Fragiliza toda esta hipótese, a já referida frase do comendador D. Diego de Soutomaior, coincidindo exactamente nos mesmos nomes (Diego López de Zúñiga + senhora Avellaneda = Constanza de Zúñiga) que se sabe pertencerem a uma geração posterior dos condes de Santa Marta. De facto, a terceira condessa de Santa Marta foi D. Constanza de Zúñiga y Avellaneda, filha dos primeiros condes de Miranda del Castañar, D. Diego López de Zúñiga e D. Aldonza de Avellaneda, primos co-irmãos da dita D. Teresa de Zúñiga, a primeira condessa de Santa Marta. Embora pareça confusa, esta genealogia, à luz dos parentescos medievais, também identifica Constanza como sobrinha daquela condessa, filha de primo co-irmão. Não se verifica, no entanto, a existência de um D. Juan de Zúñiga nesta geração da casa de Miranda del Castañar. Além do mais a cronologia estabelece para esta Constanza, uma data de nascimento limite nos anos 40 do século XV, enquanto a mãe do futuro conde de Caminha não poderia ter vindo ao mundo depois de 1420.

Castelo de Miranda del Castañar (Salamanca)
Castelo de Miranda del Castañar (Salamanca)

O que acima fica dito, parece fazer oscilar a presumível origem de Constanza de Zúñiga, entre a casa orensana de Monterrei e a salmantina de Miranda del Castañar, aparecendo em fundo, o condado de Santa Marta de Ortigueira como elemento estruturante de um enredo que decorre entre meados do século XV e o primeiro terço do seguinte, envolvendo as linhagens de Soutomaior, Zúñiga, Ulloa e Sarmiento.

Em 1468, quando Álvaro de Soutomaior decide perfilhar o “bastardo” Pedro, altera a linha de sucessão que seu pai, Fernan Yañez, estabelecera no testamento de 1440: se Álvaro não tivesse filhos, os senhorios passariam à tia, Maior de Soutomaior, e desta, pela mesma razão, passariam a Lopo Sanches de Ulloa, ou aos da sua geração. Por isso se realizou o seu casamento com a filha deste, Maria de Ulloa. Só que o matrimónio não teve fruto e Álvaro morreu, sem deixar geração, mas perfilhando o irmão para que pudesse herdar, o que veio a acontecer, por expressa autorização do rei Enrique IV, em Agosto de 1468[14]. Mais tarde, em 1477, D. Maior de Soutomaior confirmá-lo-ia em testamento, como seu herdeiro universal[15], desfazendo qualquer dúvida, sobre a legitimidade de D. Pedro Álvares, já conde de Caminha, à herança da casa de Soutomaior.

Entretanto, protestava o cunhado D. Sancho de Ulloa, filho de Lopo, considerando-se o legítimo candidato a herdeiro[16], conforme definira o testamento de 1440. Prevenindo-se quanto às suas origens maternas, Pedro Madruga poderá ter buscado a legitimidade entre a incontestável nobreza dos Zúñiga, parentes e aliados – tanto na Galiza como na Extremadura[17] -, e a quem o seu irmão Álvaro tinha recentemente apoiado, na invasão predadora feita por D. Juan ao território dos Ulloa, interrompendo deste modo, a aliança familiar que os Soutomaior mantinham há duas gerações com os desta linhagem. Afirma-o Vasco da Ponte, contando que quando Lope Sanches de Ulloa “(…) tiña casada a súa filla com Xoán Zúñiga, que cando el lla quitou e a casou com Diego de Lemos, o tal Xoán Zúñiga axuntou consigo grandes xentes do vizconde [de Fisterra, D. Lope Sanches de Moscoso, aliado dos Soutomaior] e do conde de Ribadavia, e a casa de Soutomaior e correulle toda a súa terra e queimoulle a casa de Vilarmaior (…)”[18].

Prova igualmente a firme aliança entre as casas de Soutomaior e Monterrei, o facto de não haver notícia desta última ter integrado as expedições militares dos Pimentel e Sarmiento contra a cidade de Tui – na posse dos Soutomaior -, ou ter subscrito o acordo de Mucientes, em que os condes de Benavente e Santa Marta juraram“(…) non fazer trato, pas nin avenençia com Álvaro Paes de Soutomaior (…) antes le faremos todo mal e dagno en su persona e fortalesas e bienes e vassalos que pudiéremos (…)”[19]. Sendo certo, que D. Juan de Zúñiga y Biedma viveu largos anos em casa de sua irmã D. Teresa, condessa de Santa Marta, desempenhando cargos da confiança do conde seu cunhado e Adiantado-Maior da Galiza, entre os quais o de Meirinho-Maior das suas hostes[20], e chegando a ser escolhido por mediador, em certa disputa de monta entre Álvaro de Soutomaior e o próprio adiantado D. Diego Pérez Sarmiento, com vantagem para o primeiro ao garantir a posse da vila de Salvaterra[21]. Porém ficaram os termos por cumprir até à morte do Sarmiento, decidindo em seguida a Zúñiga, entregar Salvaterra aos Soutomaior! Igualmente se evidencia tal aliança, no pedido de ajuda a Pedro Álvares de Soutomaior, feito pela dita viúva, quando desesperava na luta pela integridade do seu senhorio contra o rebelado povo de Ribadavia. Morreu todavia D. Teresa de Zúñiga y Biedma violentamente, antes que ali chegasse aquele sobrinho, o qual em retaliação a vingou de forma exemplar, fazendo “(…) matar a uns e a outros cortar os pés, e a outros prender (…)[22].

Quatro anos depois, em 1474, desaparece o seu irmão D. Juan de Zúñiga y Biedma, visconde de Monterrei. Casado com a única filha deste, Sancho de Ulloa recebe dos Reis Católicos, o título de Conde de Monterrei. Aliado do arcebispo Fonseca, será desde então, um dos maiores inimigos do conde de Caminha. Entre os Ulloa e os Zúñiga, naturalmente a casa de Soutomaior estará desde então ao lado de Pedro de Zúñiga y Barba, meio-irmão dos já falecidos visconde de Monterrei e condessa de Santa Marta, nomeadamente em 1486, quando este decide reclamar na justiça, a D. Sancho de Ulloa, o morgadio das terras de Monterrei, baseado numa antiga sentença de 1454. O Zúñiga ganha o pleito judicial em 1489[23]. Sua mulher, D. Juana de Arellano, era prima co-irmã de D. Aldonza de Avellaneda, a já referida condessa de Miranda del Castañar, mãe de Constanza de Zúñiga – a presumida mãe do conde de Caminha D. Pedro de Soutomaior, atendendo às palavras do filho deste, D. Diego, comendador da Ordem de Alcántara.

Nesse meio tempo, depois da morte da primeira condessa D. Teresa de Zúñiga y Biedma (1470), disputou-se igualmente na justiça, o direito à sucessão no condado de Santa Marta, entre D. Bernardino Sarmiento e o sobrinho Francisco, casado com a dita Constanza de Zúñiga[24]. Os Soutomaior estarão ao lado deste último, ou não tivesse D. Bernardino pactuado com o arcebispo Fonseca, a morte de Pedro Madruga, às mãos traiçoeiras de outro Sarmiento, senhor de Sobroso[25]! Em 1476 Bernardino cede, recebendo à posteriori e à guisa de compensação, o título de Conde de Ribadavia, prolongando-se no entanto o pleito pelas vilas de Ribadavia, Ortigueira e Mucientes até aos anos noventa, a instâncias da própria D. Constanza de Zúñiga, então já viúva[26]. Também a vila de Salvaterra foi disputada nesta época, entre os condes de Ribadavia e Caminha, sendo de crer que estes últimos terão recebido o apoio da condessa de Santa Marta, “(…) que se procuraba amigos y aliados en Galicia (…)”[27], tentando a todo o custo ganhar vantagem sobre o seu parente.

O comportamento da casa de Soutomaior que aqui fica analisado, deixa assim clara uma colagem à linhagem dos Zúñiga, sustentada no parentesco da casa de Biedma, e no apoio mútuo contra inimigos comuns: os Ulloa numa primeira fase, e os Sarmiento mais adiante. Não reflecte por isso, necessariamente, uma ponte genealógica próxima com D. Pedro Álvares, conde de Caminha, uma vez que muito antes da sua entrada em cena, já Fernan Yañez e Álvaro de Soutomaior acompanhavam com os daquela linhagem.

Acerta em cheio José García Oro, ao definir as elevadas aspirações de Pedro Madruga: “(…) lo que él se empeñó en ser y lo que pensó la gente que era. Su grandeza, real o pretendida, le valió también la suerte de poseer una biografia de corte hidalgo (…)”. Isso reflecte-se na forçada presença heráldica dos Zúñiga em Soutomaior, apesar daquele que foi o primeiro conde da linhagem, ter sido“(…) hijo de una madre pretendidamente desconocida (…)”![28] Reportando-se essa fonte primogénita, pelo menos ao tempo em que Pedro Madruga comandava os destinos da linhagem, mais de trinta anos se tinham já passado desde a morte de Fernan Yañez de Soutomaior, guardando segredo sobre a identidade da mulher em quem gerara o “bastardo”. Esse facto suscita inevitavelmente a hipótese, de ter sido o próprio Pedro Álvares de Soutomaior, a introduzir e difundir a sua ascendência materna – “real ou pretendida” – na Galiza (onde precisava de se afirmar e ganhar aliados, por exemplo, na pessoa do visconde de Monterrei), em Castela (onde os Zúñiga eram primeiros cavaleiros e estariam na linha da frente no apoio à princesa Juana contra os Católicos), ou em Portugal (onde o rei Afonso V o autorizara a casar com a filha de um dos seus influentes conselheiros, chefe de uma das mais antigas e nobres linhagens do reino). Sendo assim, facilmente se compreende que a geração proveniente do conde de Caminha – cujo filho mais velho atingiria a maioridade legal (14 anos) já em meados dos anos oitenta, a pouco tempo do desaparecimento do pai -, apresentasse um limitado conhecimento acerca da sua avó paterna, e sempre através da perspectiva transmitida pelo chefe da linhagem!


[1] Fernandez, M. C. (1992). La escultura funerária del siglo XV en la Iglesia de Santo Domingo de Tuy. Tuy. Museo y Archivo Diocesano, VI, pp. 177-182.

[2] Vila, S. (2010), pp. 298, 301.

[3] Arranz, F. A. (1948). Una importante falsificación de documentos a princípios del siglo XVI. Boletín del Museo Arqueológico Provincial de Orense, IV, pp. 59-125.

[4] Pericacho, J. G., Acevedo, F. N., & Salazar, M. V. (1794). Memorial ajustado del pleyto que se sigue en el Consejo y Sala de Justicia, entre Don Benito Fernando Correa, Marquês de Mós, Conde de San Bernardo, y Doña Maria Masones de Lima, Duquesa de Sotomayor, Marquesa de Tenorio y de Los Arcos. Madrid, España: Imprenta de la viuda de Don Joaquín Ibarra. Pode ler-se no índice o resumo seguinte: “Sumaria recibida por el Licenciado Romero sobre la falsedad del Testamento de Doña Mayor de Sotomayor y de otros instrumentos”.

[5] Arranz, F. A. (1948), pp. 64.

[6] Ayerbe, M. (1904). El Castillo de Marques de Mos en Sotomayor. Apuntes Históricos. (M. Ayerbe, Ed.) Madrid, España, pp. 135-136.

[7] Archivo Histórico Nacional. Relación. Informe de la descendencia de la casa de Sotomayor  (1er. Tercio del siglo XVI), Galicia: Diversos-Colecciones, Leg. 247, doc. 4.

[8] Ponte, V. (2008). Relación dalgunhas casas e liñaxes do Reino de Galiza (1ª ed.). (C. G. Pérez, Ed., & R. M. Outón, Trad.) Noia, Galicia: Editorial Toxosoutos, pp. 120-121.

[9] Carrillo de Huete, P. (2006). Crónica del Halconero de Juan II. (J. M. Carriazo, Ed.) Granada, España: Editorial Universidad de Granada, pp. 135.

[10] Zúñiga y Fonseca, B. Sumario de la descendência de los Condes de Monte Rey, Señores de la Casa de Viezma y Ulloa, Manuscrito, Colección Luis Salazar y Castro, pp. 6.

[11] García Oro, J. (1981). La Nobleza Gallega en la Baja Edad Media. Santiago de Compostela, Galicia: Bibliófilos Gallegos, pp. 222.

[12] Pardo Villar, A. (1942). Historia del Convento de Santo Domingo de Pontevedra. Pontevedra, Galicia: El Museo de Pontevedra, pp. 150. O autor transcreve uma doação de Fernan Yañez de Soutomaior, feita em 1433 ao convento, na qual identifica a mãe como “Doña Elvira de Bema”. Segundo Lavaña, nas notas ao Nobiliário do Conde D. Pedro, “Bema es lo mismo que Biedma (…)”.

[13] Vila, S. (2010), pp. 299.

[14] Archivo Histórico Provincial de Zaragoza. P 4-092-02. 6/08/1468. Leitura feita por Suso Vila e publicada em Vila, S. (2010), pp. 461-465.

[15] Museo de Pontevedra. Tumbo de Santo Domingo, 1423-1488. Col. Sampedro 21-6. (Pergaminho). 6/01/1477. Leitura feita por Suso Vila e publicada em Vila, S. (2010), pp. 470-472.

[16] García Oro, J. (1981), pp. 174. O autor cita excertos do testamento de Sancho de Ulloa, feito em 1480: “Pedro Alvarez de Sotomayor, com quien disputaba sobre bienes hereditários y «por enemistad le era enemigo»”.

[17] As casas de Belalcázar (Sotomayor) e Plasencia (Zúñiga) estavam aliadas desde princípios dos anos 50 do século XV, através do casamento de D. Alfonso de Sotomayor com D. Elvira de Zúñiga, sobrinha dos de Monterrei.

[18] Ponte, V. (2008), pp. 77.

[19] García Oro, J. (1981), pp. 96-97.

[20] Delgado, A. D. (2013). La Casa de Monterrey: Agregada a la Casa de Alba desde 1733. (U. C. Madrid, Ed.) Obtido em 12 de Maio de 2013, de Universidad Complutense de Madrid – Departamento de Historia Moderna – Tesis Doctorales: http://eprints.ucm.es/21468/1/T34471.pdf, pp. 133.

[21] García Oro, J. (1981), pp. 222.

[22] Ponte, V. (2008), pp. 121.

[23] Delgado, A. D. (2013), pp. 156-157.

[24] García Oro, J. (1981), pp. 108.

[25] Vila, S. (2010), pp. 197.

[26] García Oro, J. (1981), pp. 109.

[27] Ibidem, pp.109.

No rasto matricial do conde D. Pedro de Caminha (I) – «Dona nobre» ou «mulher vil». Indícios de um testamento

Soutomaior (Pontevedra)
Soutomaior (Pontevedra)

Nota introdutória

Insere-se o presente ensaio no vasto âmbito dos estudos, que desde 1898 pretendem fundamentar a origem galega de Cristóvão Colón, o descobridor do continente americano. Entre os diversos rumos propostos por quase meia centena de investigadores, sobressai hoje em dia o enunciado que o identifica com D. Pedro Álvares de Soutomaior, visconde na galega Tui, e conde na portuguesa Caminha. Leva a proposição cerca de três décadas, e sustenta-se – entre outros – num pilar fundamental: a incerteza da identidade materna deste último. Trata-se de matéria controversa, e da qual se desconhece à data, qualquer resenha de cariz plenário e abrangente. Um vazio eversivo no edifício da opinião. Esta premissa encerra por si só, a razão do exercício que segue.

“Dona nobre” ou “mulher vil”? – Indícios de um testamento

A identidade da mãe de Pedro Madruga mantém-se, ainda hoje, um mistério tão impenetrável, como a busca da origem de Colón, o almirante das índias.

Entre as esparsas citações dos próprios netos, a opinião de um cronista daqueles tempos, e as conclusões extraídas de alguns genealogistas de referência, brotou a inconsistência que hoje invalida a assunção de qualquer certeza, complicando, em absoluto, a tarefa de reconstrução desse capítulo gerador da vida do conde de Caminha.

De todas as conhecidas, a fonte mais antiga que a menciona, é o próprio testamento de quem a tomou por manceba, fosse por consentimento, ou mero recurso ao “direito de pernada” que então se praticava. Em Novembro de 1440, preparando-se para enfrentar o juízo final, Fernan Yañez de Soutomaior aliviava a sua consciência a esse respeito, ditando a seguinte manda: “(…) a Pero de Sotomaior mi fizo bastardo queyo ove de una muger que sabe bien su nombre y quien ella es Alfon Guadardans mi escudero – y el dicho Rodrigo de Deza mi sobrino quele den a el dicho mi fizo bastardo todas las cosas q menester oviere para se crear, y con q dependa em estudio porq es mi voluntad q sea Clerigo. et esto q sea fecho y see faga a bien vista de fray Estevan de Soutelo Mestre em S.ta theolosia y del dicho Alfon Guardardan. Yten mando q den ala madre del dicho Pedro mi fizo bastardo por el cargo q della tengo docientos frolines de oro y dela dicha ley y cuño de Aragon”.[1]

É claro o cuidado do testador em não revelar o nome da amásia. Menos explícitas se tornam as razões que a isso o moveram, deixando no ar a convicção de que aquela ligação amorosa sempre foi oculta, e apenas conhecida de alguns fiéis. De outro modo, careceria de sentido essa discrição revelada nas últimas vontades. Pode atribuir-se igualmente ao testador, a consciência do erro em que incorrera, assim como a necessidade que o mesmo lhe não sobrevivesse face à sociedade de então, conforme sugere Suso Vila na sua análise à “Casa de Soutomaior (1147-1532)”. Contudo, esse mesmo autor destaca, com estranheza, que não seria um comportamento muito habitual, nomeadamente se a mulher em questão, fosse donzela nobre[2]. Conforme explica baseando-se nas leis de “Las Siete Partidas” de Alfonso X, a uma criança nascida sob essas condições, se chamava “natural”, e podia, inclusive, herdar os bens paternos[3].

Essa situação, por si só, justificava a identificação da mãe, em prol do porvir do filho. No caso de Fernan Yañez mais ainda, na hora em que procurava alívio divino para um dos seus pecados terrenos, através do garante do futuro de Pedro, numa carreira eclesiástica. Contudo, à mãe omitiu-lhe o nome e, nas duas vezes que menciona o filho, não se coíbe a adjectivá-lo de “bastardo”, excluindo-o do direito a qualquer herança patrimonial, estabelecendo apenas uma renda com que se possa criar e estudar.

A explicação para estes factos, pode assumir-se à luz do que fica dito: a mãe de Pedro de Soutomaior seria de condição social inferior, situação altamente penalizante para um nobre de elevada hierarquia, e para um filho ilegítimo com futuro apontado à igreja.

A lei que tal regimentava encerrava o título XIV da Partida IV das “Siete Partidas Del ReY Don Alfonso el Sábio”, dedicado a “las otras mugeres que tienen los homes que non son de bendiciones”. Aqui se deixa a cópia integral desse texto particular, extraído da edição madrilena de 1807, cotejada pela Real Academia de la Historia:

“LEY III.

Quáles mugeres son las que non deben rescebir por barraganas los homes nobles et de grant linage.

 Illustres personæ son llamadas en latin las personas honradas et de grant guisa, et que son puestas en dignidades, asi como los reyes et los que decenden dellos, et los condes; et otrosi los que decenden dellos, et los otros homes honrados semejantes destos: e testos atales como quier que segunt las leyes pueden rescebir barraganas, tales mugeres hi ha que non deben rescebir, asi como la sierva ó hija de sierva, ni otrosi la que fuese aforrada nin su fija, nin juglaresa nin su fija, nin tabernera, nin regatera nin sus fijas, nin alchueta nin su fija, nin otra persona ninguna de aquellas que son llamadas viles por razon de si mesmas ó por razon de aquellos de que decendieron; ca non serie guisada cosa que la sangre de los nobles homes fuese esparcida nin ayuntada á tan viles mugeres. Et si alguno de los sobredichos ficiese contra esto, si hobiese fijo de tal muger vil, segunt las leyes non serie llamado fijo natural, ante serie llamado espurio, que quiere tanto decir como fornecino: et demas tal fijo como este non debe haber parte en los bienes de su padre, nin es el padre tenudo de criarle si non quisiere”.[4]

“Espúrio” define-se como “bastardo”, e perante o que acima se lê, não se assemelhava à definição de “natural” ou “não legítimo”, facto demonstrável pela leitura do período inicial, da primeira lei, do título seguinte das “Partidas”, onde Alfonso X discorre sobre a noção de “filhos não legítimos”:

“Naturales et non legítimos llamaron los sábios antiguos á los fijos que non nascen de casamiento segunt ley, asi como los que facen en las barraganas, et los fornecinos que nascen de adulterio, ó son fechos en parienta ó en mugeres de órden, et estos non son llamados naturales porque son fechos contra ley et contra razon natural.”[5]

Deslindado este facto, uma outra razão o confirma: a magra quantia legada. É opinião sustentada por Rodrigo Cota González, que “(…) parece la cantidad que se entrega como ayuda a una mujer sin linaje alguno ni gran fortuna”[6]. O autor de “Colón, Pontevedra, Caminha” baseia a afirmação, na equivalência do florim de ouro de Aragão, em relação ao maravedi, moedas correntes no tempo de Enrique IV, estimando aquele valor em 14 000 maravedis. Num ensaio acerca da eventual ligação de Pedro Madruga aos Hospitalários, estabeleci igualmente outra comparação, capaz de aferir a afirmação anterior, referindo então o dote matrimonial de uma nobre casadoura que, à época, podia ascender a um total cinquenta vezes superior![7]

Fica igualmente claro, face à transcrita lei sobre as barregãs adequadas a um homem nobre, que o presente testador optou por tomar a cargo a criação do filho, prescindindo assim da normativa que o desobrigava a tal. Acerca desta matéria, nada mais se pode extrair do referido testamento.

A existência de duas pedras de armas em partes diferentes da fortaleza-solar dos Soutomaior galegos, é a segunda fonte primária a considerar. Situa-se uma no seu muro exterior oeste, assinalando uma poterna; já a outra dá a direita (esquerda do observador) às armas próprias da linhagem, emparelhando com elas sobre o arco de entrada no paço. Exibem elementos heráldicos aparentemente estranhos à linhagem: uma banda, sobreposta por uma cadeia posta em orla. Sem qualquer reserva, trata-se do brasão de armas dos “Zúñiga”, ou “Stúñiga” como em Navarra se conheciam aqueles cavaleiros. O formato do escudo – flancos rectilíneos, ponta acentuada, e duas linhas côncavas a delimitar a parte superior do chefe -, de clara inspiração toledana, esteve em voga na península, ao tempo dos Reis Católicos e de D. Manuel de Portugal, abarcando cerca de quatro décadas (1475-1515 aprox.).

Pensa-se que a fábrica destes exemplares tenha sido ordenada por D. Pedro Álvares de Soutomaior (1468-1485), e poderá datar de princípios dos anos setenta do século XV, quando a fortaleza foi reconstruída, depois da parcial derrocada sofrida às mãos das milicias irmandiñas. Atendendo porém às características artísticas referidas, poderá também ser obra do segundo conde D. Álvaro (1485-1495), ou de seu irmão D. Diego que esteve na posse da fortaleza alguns anos entre 1496 e 1504, por mando dos Reis Católicos após pedido da mãe, a condessa D. Teresa de Távora. Para a maioria dos investigadores, como bem exemplifica a opinião de Jaime Garrido Rodríguez em “Fortalezas de la antigua província de Tuy, servem ainda hoje de prova material capaz de atestar que, embora não consigam referenciá-la documentalmente, decerto a mãe de Pedro de Soutomaior fora uma Zúñiga[8].

Soutomaior / Zúñiga (Soutomaior-Pontevedra)
Soutomaior / Zúñiga (Soutomaior-Pontevedra)

No entanto e face à omissa genealogia coeva, essa presença heráldica nos muros do castelo de Soutomaior pode meramente indiciar – da parte do seu mandante -, uma necessidade assertiva clara: o estabelecimento inequívoco de uma ponte entre a sua ascendência e a linhagem representada. A ser verdadeiro este pressuposto deve concluir-se, sem hesitação, que a origem materna de Pedro Madruga se questionava já, à época do seu regresso à Galiza como herdeiro legítimo da casa que fora do pai e do irmão. Note-se que até então no referido solar, não terá existido qualquer outro signo heráldico representativo de alianças matrimoniais (Aldán/Maldonado, Rodeiro, Mariño, Castro, Noboa, Xuárez/Deza, Biedma/Benavides, Mexia ou Ulloa), senão as faixas enxaquetadas que identificam os de Soutomaior, e só no dealbar do século XIX, como forma demonstrada de posse depois de resolvido o pleito a seu favor pela titularidade do imóvel, os Marqueses de Mós sobrepuseram o seu escudo de armas à entrada principal![9]

Retornando à forma como Fernan Yañez de Soutomaior deixou transparecer no testamento, a baixa condição da manceba, teremos forçosamente que – nesta questão das armas dos Zúñiga – levantar a hipótese de estarmos perante um falso testemunho, eventualmente surgido em 1468, durante todo o processo que conduziu à perfilhação de Pedro pelo irmão legítimo, Álvaro de Soutomaior, para que o bastardo lhe pudesse vir a suceder na casa. Ou posteriormente, na luta judicial por Salvaterra em que os Soutomaior tiveram o apoio dos Zúñiga, ou ainda quando D. Diego aspirava a ser cavaleiro alcantarino e lhe faltava a exigida nobreza pela parte da avó paterna, como adiante se verá.

A terceira fonte primária de relevo para a questão, é o testamento do segundo conde de Caminha, D. Álvaro de Soutomaior, datado de 1491. Nele surge pela primeira vez o suposto nome da mãe de Pedro Álvares de Soutomaior: “(…) de dicho Monesterio de S. Domingo [de Tui] onde está enterrada la dicha D.a Constanza de Zúñiga mi abuela”.[10]Por esta declaração, dir-se-ia afinal tratar-se de uma “dona” nobre, oriunda daquela influente linhagem, informação que condiz perfeitamente, com a inclusão das armas dos Zúñiga no património em que os seus descendentes iriam suceder. Ficam desse modo os investigadores, perante um dilema aparentemente insolúvel: mentia Fernan Yañez de Soutomaior – que nada tinha a perder -, referindo que aquele filho não legítimo era espúrio e não revelando o nome da mãe; ou mentiram os sucessores – que tudo podiam perder, caso a sua origem materna não fosse proveniente da nobreza?

Ou terá razão Suso Vila, ao propor uma versão intermédia de ambos os factos, avançando com a hipótese de Fernan Yañez ter omitido o nome de Constança, em atenção à família daquela que não estaria muito de acordo com a insultuosa relação?[11] Mas se assim fora, haveria necessidade de fustigar o ilegítimo, diminuindo-o à bastardia? Não chegaria nomeá-lo como “natural”, que o seria por direito, evitando da mesma forma, a identificação da mãe?

Pessoalmente e sustentando-me neste último parágrafo, acredito na sinceridade do primeiro testador – procurando desagravar-se às portas da morte -, desconfiando da nobre ascendência apregoada duas décadas mais tarde, porque óbvia em demasia na prosápia das suas intenções.


[1] Archivo Histórico Provincial de Zaragoza. S. IV.92-1/1. 9/11/1440. Leitura feita por Suso Vila e publicada em Vila, S. (2010). A casa de Soutomaior (1147-1532) (1ª ed.). Noia, Galicia: Editorial Toxosoutos, pp. 444-450.

[2] Ibidem, pp. 299.

[3] Ibidem, pp. 297.

[4] Alfonso X. (1807). Las siete partidas del rey don Alfonso el Sabio (Vol. III). Madrid, España: Real Academia de la Historia, pp. 86-87.

[5] Ibidem, pp. 87.

[6] Opinião expressa em correspondência privada com o autor, e devidamente consentida para citação.

[7] Sottomayor, A. P. (19 de Novembro de 2009). Pedro Madruga, Cavaleiro de São João de Rhodes (I). O tempo de provar nobreza. (F. A. Conchouso, Ed.) Obtido em 13 de Abril de 2012, de Colonianos:http://www.cristobal-colon.org/pedro-madruga-cavaleiro-de-são-joao-de-rhodes/

[8] Rodríguez, J. G. (2001). Fortalezas de la antigua província de Tuy (2ª ed.). Pontevedra, Galicia: Diputación Provincial de Pontevedra – Servicio de Publicaciones, pp. 79.

[9] Ibidem, pp. 65.

[10] Real Academia de la Historia. Madrid. Col. Salazar. M-60. Fol. 136. 23/03/1491. O documento foi publicado em Vila, S. (2010), pp. 493-494.

[11] Ibidem, pp. 299.

«No soy el primer Almirante de mi familia» (4) – Alfonso Jofre Tenorio, XX Almirante de la Mar (1312-40)

 

Almirantes de la Mar na casa de Tenorio
Almirantes de la Mar na casa de Tenorio

Coincidem os autores desde meados do século XVII, altura em que o padre Felipe de la Gandara na Armas y Triunfos de los hijos de Galicia, afirmou com orgulho regional a naturalidade galega do almirante Jofre Tenorio. Acrescentou ainda que o mesmo viera ao mundo a pouco mais de uma légua da vila de Pontevedra, entre as paredes do castelo de Tenorio, senhorio que então pertencia à sua linhagem. (Gandara, 1662, pp. 278-279)

Dois séculos mais tarde, Fernando Fulgosio na Crónica de la província de Pontevedra, integrada na Crónica General de España publicada em 1867, foi um pouco mais longe, sugerindo inclusive que «(…) Jofre debió de aprender a ser buen marino en la cercana costa y hermosísimas rias, unas á otras inmediatas». (Fulgosio, 1867, pp. 60)

Cronologicamente o nascimento de Alfonso Jofre Tenorio deve situar-se, com poucas reservas, em finais da década de oitenta do século XIII. Deduzimo-lo através da opinião de José Manuel Calderón Ortega, na sua história d’El Almirantazgo de Castilla, na qual considera a data de 1312 para a eventual atribuição do cargo, baseando-se para tal no texto de uma ordenação de 1318, da responsabilidade do então já almirante Alfonso Jofre Tenorio. (Calderón Ortega, 2003, pp. 35)

Os Anales eclesiásticos y seculares de la Muy Noble y Muy Leal Ciudad de Sevilla, de Diego Ortiz de Zúñiga, por seu turno, mencionam pela primeira vez a figura do almirante Tenorio no ano de 1316, comandando a frota de Castilla em incursões anti-muçulmanas ao longo da costa do norte de África. (Ortiz de Zúñiga, 1795, pp. 55)

Assumindo que a nomeação para o referido cargo não terá ocorrido antes da maioridade plena (25 anos), esta cronologia aponta, no mínimo, para os anos entre 1287 e 1291 para aquele nascimento. Aldonza Jofre de Loaisa, a mãe, era natural de Sevilla e filha de um cavaleiro de Aragón, muito beneficiado nos repartimentos posteriores a 1248, ano da conquista daquela cidade andaluz. É admissível pois, que Aldonza casasse com Diego Alfonso Tenorio, filho de um dos muitos cavaleiros galegos que também participaram nessa campanha militar, e por intermédio desses mesmos repartimentos acabaram por se estabelecer na Andalucia.

Esta informação, associada ao facto do castelo de Tenorio ter sido confirmado por Sancho IV de Castilla, em 1290, na casa dos Benavides, seus primos, e do almirante ter vivido grande parte da sua vida no sul andaluz, onde recebeu de Alfonso XI, em 1333, o senhorio da aldeia costeira de Moguer, torna passível que se lance alguma desconfiança acerca da naturalidade galega de Alfonso Jofre Tenorio. Contudo dois documentos deste último soberano, datados de 1328 e 1329, referem Jofre Tenorio como encomendeiro dos mosteiros beneditinos de San Xoán de Poio e San Salvador de Lerez, demonstrando-se deste modo a sua presença e interesses na região de Pontevedra.

Arca tumular da família de Alfonso Jofre Tenorio (Santa Clara de Moguer)
Arca tumular da família de Alfonso Jofre Tenorio (Santa Clara de Moguer)

Políticamente a casa de Tenorio alinhava com Sancho IV, e mais adiante com sua viúva, Maria de Molina, regente durante a menoridade de Fernando IV e Alfonso XI. Provam-no o homicídio do almirante Paio Gomes Charino às mãos de Rui Peres de Tenorio, quando aquele se passou para o bando opositor à regente, conforme abordado neste blog em «No soy el primer Almirante de mi família» (II). Morto Fernando IV em 1312, Maria de Molina foi de novo chamada à regência, acabando por partilhar com os infantes Pedro e Juan, a tutoria do novo rei de Castilla, Alfonso XI, no momento com pouco mais de um ano de idade! Assim se compreende que então fosse de novo escolhido um homem daquela linhagem, para um cargo de confiança e da maior relevância, como o era o de «Almirante de la Mar», cuja base de acção se centrava em Sevilla.

Comandando as acções de mar, há notícias de Jofre Tenorio nas campanhas lançadas pelo infante Pedro contra os mouros de Granada, entre 1315 e 1319, ano em que cessaram as hostilidades por morte na Vega, do seu promotor e do infante Juan, seu tio, que o acompanhava. Maria de Molina ficou então, como única tutora do rei, morrendo dois anos mais tarde. Ainda o seu cadáver não arrefecia, e já três candidatos a tutor se digladiavam, atraídos pelo poder que aquela condição oferecia: Felipe, irmão de Pedro; Juan «el Tuerto», seu primo co-irmão, da casa de Haro; e Juan Manuel, um segundo primo, filho de um irmão de Alfonso X. Posicionou-se o primeiro em Sevilla, o segundo em Zamora, e o último foi chamado a Córdoba.

Castilla viveu então um período conturbado, marcado pelos enfrentamentos destes três partidos, sofrendo a população, obrigada, as agruras e o esforço dos impostos nos respectivos domínios territoriais. Sevilla não foi excepção sob o jugo de Felipe, e a instâncias de um alvará real conseguido pelo senhor de Benavides e Tenorio – seu primo Juan Alfonso, que o infante Pedro nomeara porteiro-maior de León -, pôde Jofre Tenorio tomar o poder naquela cidade, aproveitando uma ausência do infante Felipe.

Mandava o rei que o almirante governasse Sevilla em seu nome, até que o jovem soberano deixasse de estar sob tutela e alí se pudesse deslocar. Devidamente apoiado, Alfonso Jofre Tenorio encabeçou então, no ano de 1325, o levantamento de Sevilla contra Felipe, expulsando da cidade os partidários daquele, entre os quais se encontravam os Guzmán de Sanlúcar de Barrameda, os Ponce de León de Marchena, os Lacerda e o alcaide-maior Fernández de Saavedra!

Meses depois Alfonso XI atingiu a maioridade, passando de imediato a desenvolver acções de pacificação do reino, entre as quais se conta a entrega de Sevilla aos cidadãos e concelho, e a confirmação das suas isenções e privilégios. Para lá se deslocou em 1327, conforme prometera, passando desde logo à organização de nova campanha contra os muçulmanos do reino de Granada.

Calderón Ortega recolhe com sabedoria, a importância do comando de Jofre Tenorio para o sucesso  dassas acções militares, cabendo-lhe o bloqueio das comunicações marítimas entre España e o norte de África. Oportuna por diversas vezes, a intervenção do almirante permitiu que Alfonso XI conseguisse, por fim, montar cerco à praça de Gibraltar em Julho de 1333, no que resultou um vantajoso acordo de tréguas por quatro anos com o sultão de Granada, negociado em Agosto, revisto logo em Outubro e assinado definitivamente em Fez, a 26 de Fevereiro de 1334. (Calderón Ortega, 2003, pp. 36-38)

Santa Clara de Moguer
Santa Clara de Moguer

Como recompensa pelos «(…) buenos servicios, que feicisteis al rey don Fernando, nuestro padre, que Dios perdone, e feicistes e facedes a nos de cada dia (…)» recebeu Alfonso Jofre Tenorio, no rescaldo de Gibraltar, o senhorio da aldeia de Moguer, porto natural de mar no golfo de Cádiz, perto da fronteira portuguesa. Nos anos consequentes, juntamente com Elvira de Velasco, sua mulher, fundaria duas instituições religiosas naquela povoação: o convento do Corpus Christi, e o mosteiro de Santa Clara.

Começavam entretanto as hostilidades do rei português Afonso IV, indignado pela forma como Alfonso XI se dedicava à sua amante – a sevilhana Leonor de Guzmán – ignorando e prejudicando a família legítima nascida do casamento com sua filha Maria de Portugal. O conflito estalou na Extremadura com o cerco a Badajoz, e logo se estendeu à Andalucia. No entender de Calderón Ortega, esta curta guerra que durou entre meados de 1336 e finais de 1339, foi essencialmente naval. Badajoz foi recuperada pelas hostes andaluzas e preparou-se logo uma armada de navios e galeras, capaz para a demanda da costa portuguesa. (Calderón Ortega, 2003, pp. 39)

Terminado o Inverno, trinta galeras portuguesas partiram de Lisboa, rumo ao sul, comandadas pelo almirante Manuel Pessanha, e cerca de quarenta fizeram-se ao mar, desde Sevilla, com Jofre Tenorio à cabeça. Uma violenta tempestade impediu o recontro, regressando ambas as armadas à base, com severas perdas e avarias, obrigando a prolongadas reparações. No começo do verão, voltaram a fazer-se ao mar, consideravelmente reduzidas em cerca de dez unidades cada. Encontraram-se ao largo do cabo de São Vicente, tendo essa batalha naval sido registada pelos cronistas de ambas as coroas, e analisada já no século XX pelo professor Armando Saturnino Monteiro, capitão-de-mar-e-guerra da armada portuguesa.

Segundo revela no seu trabalho de abordagem às Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa, este abalizado investigador considera que a vitória castelhana aconteceu, por conta de certa estratégia de combate, já anteriormente utilizada por Jofre Tenorio, com êxito, contra os muçulmanos. Referia-se por certo ao ano de 1328, e à derrota infligida à frota conjunta de vinte e duas galeras preparada pelos sultões de Granada e Marrocos.

«Atacando impetuosamente, as galés portuguesas conseguiram ao fim de pouco tempo render nove das contrárias. Depois houve qualquer coisa que fez inverter o rumo dos acontecimentos. Uma hipótese a considerar é que tenham chegado as naus castelhanas (a armada era composta por galés, e naus para apoio logístico) que tenham começado a abalroar algumas das nossas galés que estavam atracadas às inimigas, afundando umas tantas, e que tenham aferrado outras, lançando-lhes para dentro, do alto dos seus castelos, grande quantidade de pedras, barras de ferro, setas e virotões». (Saturnino Monteiro, 1989, pp.  )

O saldo final revelou-se favorável ao almirante Tenorio: seis galés afundadas e oito capturadas, entre as quais a nave de Pessanha. Dias mais tarde, em clima de apoteose, vencedores e prisioneiros subiam o Guadalquivir em direcção a Sevilla, onde o próprio rei fez questão de os receber e felicitar. Ortiz de Zúñiga com brio pátrio, refere mesmo que o estandarte português pendia do barco de Manuel Pessanha, que assim o trazia arrastando pela água! (Ortiz de Zúñiga, 1795, pp. 92)

Junto de Alfonso XI testemunharam o acontecimento, o senescal de França e o arcebispo de Reims, embaixadores daquele reino, assim como o bispo de Rodes, delegado da Santa Sé, encarregados de procurar a paz entre os reinos ibéricos. Conseguiram-no em Dezembro de 1339, data em que Alfonso XI assinou tréguas, sendo que as últimas acções desta guerra levadas a cabo por Jofre Tenorio, foram o ataque a Castro-Marim, a destruição dos arsenais de Tavira, e o saque às vilas de Faro e Loulé.

Grosso modo, a referida trégua permitiu a Castilla enfrentar nova ameaça muçulmana, que levaria no mar à batalha de Algeciras, e por terra à célebre batalha do Salado, ocorridas respectivamente em Abril e Outubro de 1340. Revelou-se Algeciras a ultima acção de Jofre Tenorio, ingloriamente morto numa acção suicida, enfrentando sessenta galeras e mais de duas centenas e meia de navios diversos, comandando a frota de Castilla, que mais não ascendia do que a trinta e duas galeras e seis naus! A isso o moveu o orgulho de casta, quando por um revés estratégico, se viu confrontado com as dúvidas de Alfonso XI acerca do valor e perícia do seu almirantado.

Batalha naval de Algeciras (4 de Abril de 1340)
Batalha naval de Algeciras (4 de Abril de 1340)

Morreu Alfonso Jofre Tenorio nesse 4 de Abril de 1340. Afundada no mediterrâneo ou presa dos infiéis, igualmente se desfez a frota de Castilla. Fazendo fé em Calderón Ortega, os feitos e sacrifício final do almirante Tenorio, tornaram-no desde então, o «más famoso de los Almirantes de Castilla». (Calderón Ortega, 2003, pp. 40-43)

Cerca de duas décadas mais tarde, a casa de Tenorio, junto com a de Benavides, passava por manda testamentária, do supracitado primo Juan Alfonso, ao sobrinho daquele, Mem Rodrigues de Biedma, homem poderoso, herói no Salado (1340), e derrotado em Guadix contra Aragón (1362), preso no rescaldo de Najera ao lado de Enrique de Trastâmara (1367), e logo vencedor nos campos de Montiel (1369), que marcaram o fim da guerra civil castelhana. Os relevantes serviços prestados ao novo rei Enrique, valeram-lhe a mercê do senhorio de Santisteban del Puerto e a confirmação de todos os restantes estados que já detinha: Biedma, Benavides e Tenorio. Este último ficaria reservado como dote matrimonial da filha Elvira Mendes, casada já depois da sua morte, ocorrida em 1381.

A aliança com a vizinha casa de Soutomaior, somada à ligação desta aos negócios do mar, motivou o casamento de Elvira Mendes com o jovem Pedro Álvares de Soutomaior, decorreriam os anos finais do século XIV. Provam-no o nome e currículo de alguns dos cunhados: Álvaro Perez de Guzmán, Diego Hurtado de Mendoza e Alfonso Enríquez, almirantes de Castilla entre 1391 e 1429. Dos três, Alfonso Philippot escolheu o do meio para compor os seus cinco almirantes. Mas da mesma forma que o Mendoza, se aparentavam o Guzmán e o Enríquez, sendo que cada um deles representava as respectivas linhagens (Mendoza, Guzmán e Enríquez), e nunca a casa de Soutomaior.

Através do casamento daquela Elvira Mendes com Pedro Álvares, avô do conde de Caminha, entrou o senhorio de Tenorio na linhagem dos Soutomaior, tornando-se inclusivamente um dos cenários que posteriormente, mais fama granjearam ao bastardo de Soutomaior. Como facilmente se deduz, Pedro Madruga, enquanto simples habitante da região de Pontevedra, por certo seria conhecedor da história e fama de Alfonso Jofre, cujos feitos foram contados por longo tempo nas rias galegas. Por outro lado, enquanto herdeiro da casa de Tenorio, inevitavelmente teria aquele almirante por seu familiar.

 

«No soy el primer Almirante de mi familia» (3) – Álvaro Paes de Soutomaior, XIII Almirante de la Mar (1300-03)

Almirantes de la Mar na casa de Soutomaior
Almirantes de la Mar na casa de Soutomaior

Não é possível ainda hoje identificar com precisão quem foi este Álvaro Paes de Soutomaior que, entre os anos de 1300 e 1303, durante o reinado de Fernando IV, recebeu o cargo de «Almirante de la Mar».

Os antigos livros de linhagens não mencionam este cargo a ninguém da casa de Soutomaior, nem mesmo a um hipotético filho do almirante Paio Gomes Charino, uma vez que há registos de uma sua filha se chamar Teresa Paes de Soutomaior, e conhecer-se a existência de um Álvaro Paes, irmão desta. Este último tem sido apontado como a melhor hipótese para a sua identificação, mas para tal é necessário que existissem na mesma geração, dois filhos de Charino – um legítimo e o outro não – ambos com os mesmos patronímicos: Álvaro Paes.

Um deles, o ilegítimo, apenas dispensado da sua bastardia por bula papal de 1332, está actualmente bem identificado como sendo o franciscano bispo de Silves (Portugal), entre 1334 e 1352. Como data de referência para o seu nascimento é apontado o ano de 1270, e o local da sua educação primeira, a corte de Sancho IV, de quem Paio Gomes Charino era grande valido. Entre finais do século XIII e princípios do seguinte, Álvaro Paes encontrava-se na Universidade de Bolonha, cursando direito civil e canónico, logo muito longe de poder ser identificado com o referido «Almirante de la Mar».

Por isso se conjectura que Paio Gomes Charino tivesse um outro filho, legítimo, chamado Álvaro Paes, e que usasse do apelido Soutomaior, como a sua irmã Teresa. Cronologicamente a identificação faz sentido; no espaço físico também, mas deverá ser equacionado um facto: Charino fora assassinado a mando da regência, por apoiar a facção que se opunha à coroação de Fernando IV, comprometendo desse modo a restante linhagem, não sendo pacífica a nomeação de um seu filho para o cargo de almirante, ainda em tempo da regente Maria de Molina.

Castelo de Soutomaior (Soutomaior)
Castelo de Soutomaior (Soutomaior)

Recentemente, o historiador tudense Suso Vila, publicou um volumoso estudo inteiramente dedicado à Casa de Soutomaior (1147-1532), onde deixa o alerta para essa identificação, preferindo atribuí-la a Álvaro Paes, senhor de Soutomaior nos reinados de Fernando III e Alfonso X, senhorio em que sucedera a seu pai durante a década de vinte do século XIII. (Vila, 2010, pp. 26)

Seguiu a genealogia tradicional da linhagem, copiada sem questões desde o Conde D. Pedro, mas na qual se verificam algumas incongruências cronológicas, nomeadamente no que se refere aos irmãos daquele Álvaro Paes. Atendendo à opinião do padre Francisco Ruano na sua magna obra acerca da Casa de Cabrera en Córdoba, tanto Mem Paes como Rui Paes de Soutomaior, estiveram na conquista de Córdoba em 1236, acompanhando seus tios Pedro e Suero Mendes. A todos couberam «repartimentos» que viriam a dar origem aos senhorios de «El Carpio» e de «Torre de Mendo Paes». (Ruano, 1779, pp. 162-163)

O chefe da linhagem fora um dos heróis de Navas de Tolosa (1212), Paio Mendes Sorredea, senhor de Soutomaior, «preciado tanto de los Reyes i altos señores, que cada uno le queria consigo» – conforme opinião registada no Livro de Linhagens do Conde D. Pedro. Não foi a Córdoba por já ter morrido, uma vez que em 1231, seu filho Álvaro Paes estava já à frente das terras e castelo de Soutomaior, na Galiza, reinando Fernando III «o Santo». Sendo cabeça de linhagem de solar conhecido, Álvaro Paes de Soutomaior não acompanhou aqueles seus irmãos, Mem e Rui Paes, à aventura de Córdoba.

É precisamente a identificação deste Rui Paes que lança alguma confusão na genealogia proposta pelo Conde D. Pedro, pois a ele se deve atribuir a titularidade, em 1205, do castelo de Puebla de Eca, na região de Almazán (Soria), facto documentado e apresentado por Angél Almazán de Gracia na Revista de Soria. No entanto, essa realidade inviabiliza que aquele Rui Paes seja o mesmo, morto na batalha de Paxarón contra D. Diego López de Haro, em 1289, «aonde el iva por Caudillo del Rey Don Sancho de Castilla», conforme atesta o já mencionado Livro de Linhagens. Assim sendo, Rui Paes de Soutomaior teria morrido em combate… com cerca de cem anos! Pela mesma ordem de ideias, e seguindo a Suso Vila, teríamos o seu irmão Álvaro Paes, Almirante de la Mar, a exercer o cargo com perto de cento e vinte anos! (Almazán, 1995, Nº 9, pp. 20; Vila, 2010, pp. 26)

Desse modo fará sentido considerar-se um segundo Rui Paes, filho do anterior, o que explicaria a confusão cronológica estabelecida. A este segundo Rui Paes de Soutomaior deveria atribuir-se a identificação com o adiantado-maior da Galiza, morto em 1289 ao serviço de Sancho IV, provavelmente já sexagenário. Também só dessa forma seria cronologicamente possível, que Teresa Rodrigues, filha daquele, pudesse contrair um segundo matrimónio com Garcia Lasso de la Vega «o Velho», valido do rei Alfonso XI (1312-1350), chanceler, adiantado e justiça-maior de Castilla, falecido em 1326.

Não há hoje forma de estabelecer documentalmente, qual o parentesco deste Garcia, com o almirante Pedro Lasso de la Vega, que ocupou o cargo em 1278 juntamente com Pedro Martinez de Fe. Nessa época, segundo explica M. Jorge Parada Mejuto, co-existiam por vezes dois titulares do cargo: um responsável pela costa atlântica, comandando a frota de barcos «mancos», ou seja os navios à vela – o Almirante de la Mar -; e o outro pela zona mediterrânica, comandando as galeras da Coroa – o Almirante de Sevilla. Pedro Lasso estaria encarregue da primeira, uma vez que a armada que foi tragicamente derrotada em Algeciras no ano de 1279, navegava sob o comando de Martinez de Fe. Cronologicamente podemos aceitar aquele Pedro Lasso como pai ou tio do «velho» Garcia acima mencionado, o que pode representar uma aliança da casa de Soutomaior com um dos primeiros titulares do cargo de «Almirante de la Mar». (Parada Mejuto, 2007, pp. 143-144)

Contudo o Conde D. Pedro apresentou Rui Paes como irmão de Álvaro Paes, apesar de induzido em erro no tempo cronológico. Consequentemente esse parentesco deverá ser tido em conta, levando-nos de novo aos filhos de Paio Gomes Charino, dos quais se conhecem dois com esses nomes. Sendo assim, a necessária existência do segundo Rui Paes torná-lo-ia ou no filho do primeiro do mesmo nome, ou no filho do almirante Charino!

Pelo que fica dito, e não se tratando de nenhum filho de Paio Gomes Charino, apenas há conhecimento de mais dois Álvaro Paes na casa de Soutomaior, cronologicamente compatíveis com a nomeação para «Almirante de la Mar» no dealbar do século XIV: o neto do seu homónimo acima referido, a quem o Conde D. Pedro chama Álvaro Peres; ou o neto do conquistador de Córdoba Mem Paes de Soutomaior.

Castelo de Fornelos (Crecente)
Castelo de Fornelos (Crecente)

Quanto ao primeiro, Suso Vila é claro quando refere com estranheza, a inexistência de documentação coeva onde seja mencionado. Como tal, deveremos cingir-nos à sequência onomástica atribuída pelo Livro de Linhagens, que a um filho de Álvaro corresponde o patronímico «Álvares» e a um filho de Pedro um patronímico «Peres». Atrevemo-nos a contestar esta asserção do Conde D. Pedro, até porque na sucessão de gerações conhecidas na casa de Soutomaior não se repete o patronímico «Peres», antes sim o «Paes», oriundo de Paio Mendes, o das «Navas de Tolosa» e primeiro que usou a identificação da linhagem dos de «Soutomaior». Para mais, o próprio Suso Vila propõe uma documentada Ana Paes de Soutomaior, para irmã daquele. Também outro autor, Alfonso Vázquez Martinez, que publicou no Boletim do Museo Arqueolóxico de Ourense um estudo dedicado ao Castillo de Fornelos (Creciente) – senhorio herdado pela mulher daquele suposto Álvaro Peres – se lhe refere com o patronímico de «Paes». (Vila, 2010, pp. 27-28; Martinez, 1948, vol. IV, pp. 151, 156)

A ser correcta a proposição anterior, teríamos um Álvaro Paes à cabeça das terras e castelos de Soutomaior e Fornelos em finais do século XIII, com cerca de quarenta anos de idade, maduro o suficiente para assumir a responsabilidade do referido cargo. Para mais, um dos seus filhos, Paio Sorredea, viria a casar com Juana, filha de Diego Gomez de Castañeda, Almirante de la Mar no ano de 1311, demonstrando essa aliança, mais uma vez, a forte ligação da casa de Soutomaior aos detentores do almirantado, pois já Pedro e Nuno Diáz de Castañeda, respectivamente pai e tio de Diego, tinham representado o mesmo cargo em simultâneo, por sucessão a Charino, entre 1286 e 1291, conforme estudo acerca do Almirantazgo de Castilla: Historia de una institución conflictiva (1250-1560) da autoria de José Manuel Calderón Ortega.

Esse autor esclarece ainda o importante papel desempenhado por Álvaro Paes de Soutomaior, enquanto regulador da instituição do almirantado, sendo da sua responsabilidade um instrumento legal conhecido como «Ordenamiento de los Guindajes», datado de 4 de Fevereiro de 1302. Segundo Calderón Ortega, naquele texto recolhem-se os direitos económicos pertencentes ao cargo de «Almirante de la Mar», e referentes à carga e descarga de navios nos portos da Andalucia. Seria necessário um homem com bastante experiência nos meandros do comércio marítimo de então, para ordenar com mérito todo esse conjunto legislativo. Esse facto, por si só, prova que já na transição entre os séculos XIII e XIV, a casa de Soutomaior se encontrava ligada aos assuntos do mar, não só pela sua localização estratégica, como pelo domínio que exerciam os seus membros sobre as rias baixas galegas. (Calderón Ortega, 2003, pp. 31-32, 202)

Não cabendo a este senhor de Soutomaior a atribuição do referido cargo, resta apenas uma outra hipótese identificativa: um seu primo segundo, também chamado Álvaro Paes de Soutomaior, filho de outro Paio Mendes e neto daquele Mem Paes, conquistador de Córdoba em 1236, já referido. Ramo segundo da casa de Soutomaior, para além do senhorio da Torre de Mendo Paes naquela cidade andaluz, mantinha na Galiza todo o território vizinho a Soutomaior, entre os rios Otaivén e Verduxo, na faldas da serra do Suido, então referenciado pelo nome de Pedreira, e hoje conhecido por San Martiño de Verducido, no município pontevedrês de A Lama.

Este Álvaro Paes a que nos referimos, cumpre igualmente a cronologia adequada, sendo homem entre os trinta e quarenta anos na transição do século XIII para o XIV. Seu irmão primogénito chamou-se Mem Paes de Soutomaior e foi o progenitor do ramo dos mestres da Ordem de Alcântara, condes de Belalcázar e duques de Bejar. Sua mãe, Inés Martins, deveria pertencer à família Topete, uma vez que um dos seus irmão se chamou Martim Topete. Este por seu turno, deverá ter sido o progenitor da linhagem dos Topete que se radicou em terras alcantarinas, a instâncias dos parentes D. Juan e D. Gutierre de Sotomayor, por quem tiveram comendas da referida ordem.

Revelador será sem dúvida, o facto destes Topete, mesmo fora da Galiza e já radicados na Extremadura de Castilla, continuarem ligados aos assuntos do mar, como o prova a documentação existente acerca de Gonzalo Sánchez Topete, tio do mestre de Alcântara D. Gutierre de Sotomayor, a quem o rei Juan II de Castilla (1406-1454) nomeou «Capitán- General de la Mar». O recurso à análise heráldica, evidencia e sistematiza igualmente esse facto. Senão vejamos: o primeiro brasão que se identifica com a linhagem dos Topete, é claramente enraizado no tronco comum com os Soutomaior – um campo faixado de sete peças, a primeira e a última de negro, a terceira e quinta de prata e as segunda, quarta e sexta axadrezadas de ouro e vermelho de duas ordens. O segundo brasão é posterior e trata-se de uma evolução do primeiro, passando o campo a ser de prata e as três faixas axadrezadas a ser ondadas de azul, óbvia referência ao tema marítimo. Finalmente o acima mencionado capitán-general de la Mar, recebeu do rei Juan II um escudo cortado – no primeiro uma gávea de negro atravessada por cinco setas da mesma cor, e no segundo um ondado de prata e azul.

Necessário se torna concluir, perante o que acima fica dito, que o XIII Almirante de la Mar, Álvaro Paes de Soutomaior, foi oriundo da região de Pontevedra, onde terá nascido na segunda metade do século XIII, filho da casa de Soutomaior, ou das colaterais de Verducido ou de Rianxo.

A relevância social do almirante nessa época, foi analisada por Calderón Ortega e serve para atestar que a memória da existência de tal cargo numa linhagem não seria esquecido, decerto, antes de três ou quatro gerações, senão mais. Baseia-se aquele investigador no texto das Partidas de Alfonso X, para determinar que o cargo de almirante era de grande consideração, gerava importantes ganhos e popularidade. Deveria ser ocupado por um competente marinheiro («sabidor del fecho de la mar e de la tierra»), de nobre estirpe (que sea de buen linaje, para aver vergença»), valente e capaz de exercer a liderança num ambiente difícil e perigoso como é a guerra no mar. (Calderón Ortega, 2003, pp. 193; Alfonso X, 1807, tomo II, pp. 259-260)

É de crer que Álvaro Paes de Soutomaior possa ter morrido na primeira ou segunda década do século XIV. Na segunda metade do século seguinte, quando Pedro Álvares de Soutomaior, futuro conde de Caminha tomou a chefia da casa que fora de seu irmão, tinham decorrido quatro gerações e quase século e meio. Forçosamente se transmitiria ainda, para glória da linhagem, a memória de um Álvaro Paes de antanho, que fora «Almirante de la Mar». A ser Pedro Madruga o almirante Cristóbal Colón, certamente saberia que «não era o primeiro almirante da sua família».

«No soy el primer Almirante de mi familia» (2) – Paio Gomes Charino, V Almirante de la Mar (1284-86)

Arca tumular de Paio Gomes Charino - Séc. XIV (São Francisco de Pontevedra)
Arca tumular de Paio Gomes Charino – Séc. XIV (São Francisco de Pontevedra)

a qui : iace : el mui noble: cavallero: payo guomez : charino: el primeiro : senor : de  rrianjo : que gano : a seuilla siendo : de moros y los preuilejos : desta uilla : ano de : 130(…)

Nasceu algures entre a península galega do Morrazo, o monte Lobeira no Salnés e a vila de Pontevedra, na década de vinte do século XIII, talvez em 1225 conforme opinião de Armando Cotarelo Valledor, o seu mais dedicado biógrafo. Durante a sua vida de cerca de setenta anos, serviu três reis de León e Castilla: Fernando III «o Santo» (1217-1252), Alfonso X «o Sábio» (1252-1284) e Sancho IV «o Bravo» (1284-1295).

Ao serviço do primeiro esteve ainda jovem, em 1248, na conquista de Sevilla, participando na armada comandada por Ramon Bonifaz. Segundo a tradição recolhida na Primera Crónica General de España editada por Ramon Menéndez Pidal em 1906, uma das acções mais decisivas dessa campanha foi a destruição da chamada «Ponte de Triana», uma ponte de barcas que atravessava o rio Guadalquivir unindo as duas margens, e que inviabilizava então o completo e eficaz cerco da cidade pelas tropas cristãs. Para a sua destruição, terão contribuído as acções concertadas de Bonifaz e Charino – se bem que a Crónica não mencione este último -, cada um capitaneando navios dos maiores e mais fortes da frota, que investiram primeiro contra as referidas barcas, abrindo caminho a um ataque em cunha que aniquilou definitivamente a referida passagem entre margens. (Menéndez Pidal, 1906, pp. 760-761)

Natural das rias galegas, com paços familiares em Pontevedra, provavelmente dotados de estaleiro marítimo como assinala M. Jorge Parada Mejuto, participante com muitos outros parentes na frota organizada entre a Cantábria e o Minho para a referida acção de conquista, decerto se deverá concluir, que tanto a sua família, como o próprio Paio Gomes, estariam envolvidos nas actividades e comércio marítimos, quer no transporte quer enquanto armadores de navios. Sugere inclusive aquele autor, que os objectivos das empresas de Paio Gomes Charino ao longo da sua vida, se prenderam essencialmente com a dinamização do comércio entre a Galiza e o Mediterrâneo, só possível através da existência, com carácter permanente, de uma armada na região do estreito de Gibraltar, capaz de anular a presença naquelas paragens de embarcações muçulmanas. (Parada Mejuto, 2007, pp. 127-132)

Durante o reinado do segundo daqueles soberanos, não existem praticamente notícias suas. Presume-se que possa ter participado em acções marítimas da época, como a tomada de Cádiz em 1263 ou o desastre de Algeciras de 1278, em virtude da obrigação de vassalagem a que estava obrigado pelo senhorio da vila realenga de Rianxo, a qual lhe fora outorgada pelo rei «sábio» como forma de controlar o enorme poder que o arcebispo de Santiago detinha na Galiza. Efectivamente ficou a dever-se a Paio Gomes, a construção naquele porto da ria de Arousa, de uma das maiores fortalezas da Galiza, que controlava a foz do rio Ulla, pelo qual se acedia à vila de Padrón, senhorio arcebispal e porta de entrada marítima para Santiago de Compostela. A acção fiscalizadora e tributária desenvolvida desde então em Rianxo, terá sido um dos factores que levou ao crescimento da alternativa de Noia, mais a norte na ria de Muros, que nas primeiras décadas do século XIV podia já ser considerada «o novo porto xacobeo», conforme lhe chama José García Oro, no capítulo que lhe dedica em Galicia en los siglos XIV y XV. (García Oro, 1987, vol. II, pp. 169)

Janelas góticas do que se crê terem sido os pazos de Paio Gomes Charino, em Pontevedra (Museo de Pontevedra)
Janelas góticas do que se crê terem sido os pazos de Paio Gomes Charino, em Pontevedra (Museo de Pontevedra)

A edição do cancioneiro de Charino, feita por Cotarelo Valledor compensa, por outro lado, a falta de documentação para este período da vida do primeiro senhor de Rianxo. Desse modo se podem conhecer vinte e oito cantigas de sua autoria: dezanove de amor, seis de amigo, uma serventês, uma de tensão e uma de escárnio. Segundo o investigador, Paio Gomes trovou durante pelo menos trinta e oito anos, entre 1248 e 1286, essencialmente como passatempo, enquadrando-se na moda cultural da corte do seu tempo. Informa também Parada Mejuto, que o idioma, que o idioma galaico-português estava então muito em voga entre castelhanos, aragoneses, portugueses e franceses, sendo os trovadores galegos muito acarinhados e procurados. (Cotarelo Valledor, 1934; Parada Mejuto, 2007, pp. 135-136)

Alfonso X reinou trinta e dois anos. Na segunda metade desse tempo sofreu forte contestação da nobreza, devido à política imperial que impôs e que foi exaurindo os recursos do reino. Rebelou-se o infante Sancho, filho segundo do monarca, encabeçando um bando de revoltosos, que cresceu até ao quase completo isolamento em que se encontrava o rei «sábio», quando morreu em Sevilla.

Paio Gomes Charino esteve desde a primeira hora com o futuro rei Sancho IV, na luta pela sucessão que aquele manteve com os sobrinhos (infantes de la Cerda), filhos do príncipe Fernando, seu irmão primogénito morto ainda em vida do pai. Esse apoio valeu-lhe a nomeação para «Almirante de la Mar», logo no início do novo reinado, existindo documentação coeva que o coloca no exercício do cargo entre Agosto de 1284 e Setembro de 1286. Cabiam-lhe por inerência das funções, a direcção e o comando das galeras do Mediterrâneo e dos navios «mancos» da costa atlântica, assim chamados por não possuírem remos; apenas velas.

Como única notícia que se conserva da sua actuação enquanto almirante, ficou o conhecido episódio da galé que Paio Charino obrigou os habitantes de Pontevedra a custear e construir para o serviço real. Fê-lo porque a vila pertencia ao arcebispo de Santiago com quem andava inimizado! Ignorou não apenas que D. Rodrigo Gonzalez estava nas boas graças de Sancho IV, como também que desde o reinado do seu antecessor, os vizinhos da vila gozavam de isenção do «imposto de galea», pelo que a tal não eram obrigados. O protesto chegou ao rei que logo ordenou o embargo à construção da nave, a qual acabou por ficar à mercê dos tempos, apodrecendo na taracena contígua ao paço de Charino!

Esse episódio, seguido no mesmo ano pela destituição de Paio Gomes enquanto «Almirante de la Mar», revela que a confiança do soberano de Castilla no senhor de Rianxo recrudesceu entre 1286 e 1291. Nesse ano, contudo, pôde retornar à graça real após ter capturado o adiantado-mor Juan Alfonso Teles, senhor de Alburquerque, cabeça do bando rebelde pró-infantes de la Cerda que tumultuava a Galiza. Na sequência dessa acção, foi nomeado para lhe suceder naquele cargo, que manteve desde 1292 até à morte do rei «bravo», em 1295. (Parada Mejuto, 2007, pp. 137-152)

Seguiu-se novo período de convulsão interna em Castilla, com a decisão de fazer coroar Fernando IV, um menino de nove anos, tutelado pela mãe, a rainha-viúva Maria de Molina, que assumiu a regência na menoridade do filho. Grande parte da nobreza galega apoiou o infante Juan de Castilla, irmão do defunto rei, que chegou a titular-se como soberano de León, Galicia e Sevilla entre 1296 e 1300, passando em seguida à obediência de Fernando IV. Nesse clima de grande instabilidade política, Paio Gomes Charino não foi excepção, aceitando do insurrecto infante a alcaiadaria de Zamora. Num desses anos finais do século XIII, acabou assassinado às mãos de um sobrinho de sua mulher chamado Rui Peres de Tenório, decerto mandatado pela regência!

Maria Giraldes Maldonado, seu mulher, continuou a residir em Pontevedra, atribuindo-se-lhe a construção da arca tumular existente no lado do Evangelho da cabeceira da igreja de San Francisco, datado de 1304 0u 1306, talvez o mais significativo testemunho que perdurou na memória do povo, legando à posteridade a lembrança do almirante-poeta.

Paio Gomes Charino e a sua dona (Alfredo Eiras)
Paio Gomes Charino e a sua dona (Alfredo Eiras)

No século XV, decerto não haveria em Pontevedra quem não frequentasse ofícios em San Francisco, e qualquer dos seus habitantes bem conheceria a efígie fúnebre de Paio Charino, jazendo ao lado de Maria Maldonado. Na frente do monumento, a inscrição que ainda hoje se pode ler (e encabeça o presente ensaio), enquadrava um escudo de armas bem conhecido dos vizinhos da vila: seis faixas axadrezadas de ouro e vermelho representavam então a poderosa casa de Soutomaior. Por esse motivo se conhecia que Paio Gomes Charino fora oriundo de tão ilustrada linhagem, a qual dominava ainda Pontevedra nesses anos de quatrocentos, primeiro com o embaixador Paio Gomes de Soutomaior, depois com o mariscal de Castilla, alcaide das torres arcebispais Suero Gomes, juntamente com seu primo Álvaro Paes, e finalmente, durante a quase totalidade da década de setenta, com Pedro Madruga, conde de Caminha, irmão deste último.

Por outro lado, a memória física da própria vila evocava o já referido episódio da galé, uma vez que se fora enraizando nesse século e meio, o hábito de conhecer a porta noroeste da vila, como «porta da galé». Não fora isso suficiente, perduravam também nesses tempos, bem perto da referida porta, os paços do almirante Charino, integrando parte da muralha da vila, e que então ainda se deviam transmitir por herança dentro da linhagem.

A própria presença na vila, com carácter de «vizinhos», dos supramencionados Paio e Suero Gomes, herdeiros de Rianxo – senhorio de que Charino fora o primeiro detentor conforme se lia na inscrição daquela arca tumular -, ainda integrava no século XV, o almirante, na linhagem dos Soutomaior. Mesmo que se não conhecessem os meandros das genealogias; ainda que de entre os seus filhos e netos um só tivesse usado aquele nome; apesar do conhecimento de que actualmente dispomos não permitir sequer documentar essa ascendência. Um facto prova, contudo, a presença ainda bem viva do antepassado Charino entre os seus descendentes: em 1454, seu bisneto, o embaixador de Enrique III a Tamerlán, Paio Gomes de Soutomaior, legava em testamento, pelo tempo de uma década, aos franciscanos da vila, uma quantia anual pela alma de Paio Gomes Charino.

D. Pedro Álvares de Soutomaior, conde de Caminha, que bem conheceu a realidade dessa Pontevedra de quatrocentos – que dominou -, teria decerto semelhante percepção relativamente a Paio Gomes Charino: pertencia à linhagem dos de Soutomaior; logo fora o primeiro almirante da sua família.

 

«No soy el primer Almirante de mi familia» (1) – Os almirantes da casa de Soutomaior

almir-sout

Meia dúzia de anos foram suficientes para que a glória conseguida por Cristóbal Colón no continente, se transformasse em amargura, desconfiança e revolta, sentimentos trazidos a Castilla em 1499 por alguns dos habitantes de La Española, cujas expectativas de vastas riquezas se viram goradas.

Pertence a Hernando Colón, o benjamim autor da História del Almirante, a descrição presencial desse clima que então grassava na corte e por certo se estenderia também ao reino dos Católicos: «Era de tal manera que estando yo en Granada, cando murió el serenísimo príncipe D. Miguel, más de 50 de ellos como hombres sin verguenza compraron una gran cantidad de uvas y se metieron en el pátio de la Alhambra, dando grandes gritos, diciendo que sus altezas y el Almirante los hacían passar la vida de aquella forma, por la mala paga, y otras deshonestidades é indecências que repetian.

Tanta era su desverguenza, que cuando el Rey Católico salía, le rodeaban todos y le cogían en medio diciendo: Paga, paga, y si acaso yo y mi hermano, que éramos pajes de la serenísima Reina pasábamos por donde estaban, levantaban el grito hasta los cielos diciendo: – Mirad los hijos del Almirante, los mosquitillos de aquel que há hallado tierras de vanidad, y engano para sepulcro y miséria de los hidalgos castellanos, – añadiendo otras muchas injurias por lo cual excusábamos passar por delante de ellos.» (Colón, 1892, vol. II, pp. 122-123)

Existem pelo menos, mais duas versões similares desta última frase acusatória: «Mirad los hijos del Almirante de los mosquitillos, de aquél (…)», numa conferência acerca de Colón y Bobadilla, proferida no ateneo de Madrid por D. Luís Vidart, e «Mirad los hijos del Almirante de los mosquitos, de aquél (…)», na edição da História del Almirante de Luís Arranz Marquez, expressão ressaltada por Consuelo Varela nos seus estudos sobre Cristóbal Colón y la construcción de un mundo nuevo. (Vidart, 1892, pp. 9; Colón, 1984, pp. 260-261; Varela, 2010, pp. 78)

Perdido que foi o texto original, não é hoje possível recuperar a ideia exacta que Hernando Colón quis transmitir. Porém, uma ilação é possível extrair-se entre estas versões: se aos filhos chamavam «mosquitillos», ao pai decerto chamariam depreciativamente «Almirante de los mosquitos» ou «mosquitillos», descarregando nessa praga insalubre – abundante naquelas remotas paragens – todos os factores negativos da colonização de terras tão sem atractivos.

Esclarecer este aparente pormenor é relevante, quando nos move a intenção de comentar uma reacção de Colón a essas notícias vindas da corte, quiçá incluídas nalguma missiva então enviada por Diego a seu pai.

Obviamente que Cristóbal sabia que era criticado e ridicularizado no reino. Disso faz referência numa das cartas que enviou a Juana de la Torre – que fora ama do príncipe Juan de Castilla – mencionada por Hernando Colón e da qual também se perdeu o original, restando apenas a citação incluída na História del Almirante: «No soy el primer Almirante de mi família; pónganme el nombre que quisieren, que al fin David, Rey muy sábio, guardó ovejas y después fué hecho Rey de Jerusalém; y yo soy siervo de aquel mismo Señor que puso á David en este estado.» (Colón, 1892, vol. I, pp. 13)

Como quem diz: tenho linhagem de chefes de mar; mereço o cargo; não me importam insultos pois Deus saberá fazer-me justiça!

Alfonso Philippot Abeledo foi quem primeiro identificou Cristóbal Colón com o magnata galego D. Pedro Álvares de Soutomaior, celebrizado pela alcunha de «Pedro Madruga». Entre as muitas evidências apresentadas, o início desta frase supracitada e imortalizada na História del Almirante, é de impossível contestação quando atribuída àquele senhor de Soutomaior. Baseado no estudo genealógico, Philippot encontrou quatro figuras que verificavam a afirmação «No soy el primer Almirante de mi família», quando aplicada à casa de Soutomaior: Paio Gomes Charino, Álvaro Paes, Alfonso Jofre Tenório e Diego Hurtado de Mendoza.

Pedra de armas de Cristóbal Colón - Séc. XVI (Puerto Rico)
Pedra de armas de Cristóbal Colón – Séc. XVI (Puerto Rico)

Procurando o reforço dos seus argumentos, o investigador foi ainda mais longe, associando-os ao número de âncoras que constituíam parte do escudo de armas atribuído pelos Reis Católicos a D. Cristóbal Colón: em campo de azul, cinco âncoras de ouro deitadas e postas em aspa. A quinta âncora corresponderia ao próprio almirante.

Interpretava desse modo aquele brasonar, atribuindo-lhe características «falantes», expressão que em heráldica se traduz pela associação visual simples, a ideias ou significantes. Por outras palavras: se o campo de azul e o signo da âncora se associavam directamente ao trato de mar – o que se não contesta – já o número de âncoras deveria significar que o portador se assumia como o quinto almirante da sua linhagem. A necessidade de fazer prova desta premissa, levou a que Alfonso Philippot se «excedesse» na busca genealógica, incluindo neste grupo o almirante Diego Hurtado de Mendoza, cuja ascendência na casa de Soutomaior remontava a cinco gerações e claramente se identificava então, apenas com a linhagem dos mendoza, senhores de Hita e Buitrago. (Philippot Abeledo, 1994, pp. 229)

Os Anales eclesiásticos y seculares de la Muy Noble y Muy Leal Ciudad de Sevilla, de Diego Ortiz de Zúñiga, foram a fonte consultada. Nele se dizia que os almirantes «(…) a los blasones de sus armas, añadian un áncora, como lo he visto en algunos sellos de Don Juan Mate de Luna, y otros». Porém esta ideia não vincula que figurassem tantas âncoras, quantos os familiares que haviam militado naquele cargo! (Ortiz de Zúñiga, 1795, tomo II, pp. 298)

Pode mesmo atestar-se que em heráldica, o ordenamento do escudo segundo opções formais estéticas, se sobrepõe bastas vezes à suposta simbólica representada. Por isso as peças móveis – de que a âncora é um excelente exemplo – se apresentam em número variado e sempre assumindo posições fundamentais. Um caso paradigmático do que se afirma, são as variações ao longo do tempo no número de besantes ordenados nas quinas do brasão português, assim como a quantidade de castelos presentes na bordadura do mesmo.

Escudo de armas de D. Fadrique Enríquez de Cabrera, almirante de Castilla - Séc. XVI
Escudo de armas de D. Fadrique Enríquez de Cabrera, almirante de Castilla – Séc. XVI

Desse modo, as cinco âncoras postas em aspa no brasão de Colón, mais não devem ser entendidas do que representando a dignidade de Almirante em que fora investido. Tome-se como exemplo a primeira página do privilégio de confirmação do Almirantado de Granada a D. Fadrique Enríquez de Cabrera, a qual ilustra a capa do estudo dedicado ao Almirantazgo de Castilla, assinado por José Manuel Calderón Ortega. Em rodapé, figura o escudo de armas daquele Fadrique Enríquez, o quarto almirante da sua família (Enríquez de Castilla), ou o sexto se considerarmos igualmente a linhagem da bisavó D. Juana de Mendoza y Ayala, irmã e sobrinha dos almirantes da casa de Mendoza. O referido escudo apresenta-se esquartelado de Enríquez de Castilla, contra Cabreras de Módica, interessando-nos mais particularmente a representação heráldica relativa aos primeiros. (Calderón Ortega, 2003)

Segundo o Diccionario Heraldico y Nobiliario de Fernando Gonzalez-Doria, as armas dos Enríquez ordenavam-se da seguinte forma na sua origem: escudo mantelado; 1º e 2º , em campo vermelho, um castelo de ouro, e no mantel de prata, um leão rampante de vermelho. (Gonzalez-Doria, 1994, pp. 524)

Pedra de armas dos Enríquez, almirantes de Castilla - Séc. XV (Castelo de Torrelobatón)
Pedra de armas dos Enríquez, almirantes de Castilla – Séc. XV (Castelo de Torrelobatón)

Após a elevação de Alfonso Enríquez ao cargo de almirante de Castilla, em 1405, esse ramo da linhagem acrescentou à sua representação heráldica, uma bordadura de prata, carregada indiferentemente de seis ou oito âncoras azuis, travadas de ouro. Registam-no os escudos existentes no castelo de Torrelobatón, que lhes pertenceu (6 âncoras), e verifica-se no aludido exemplo da capa do livro de Calderón Ortega, extraído do privilégio de confirmação do Almirantado de Granada (8 âncoras), provando-se deste modo que o número das mesmas era, de facto, aleatório e sujeito ao regimento heráldico ou às condicionantes do desenho.

Explanado este ponto de vista, deverá ser descartado o nome de Diego Hurtado de Mendoza, dos possíveis titulares do almirantado de Castilla, pertencentes à casa de Soutomaior, resumindo-se então a lista a três nomes, todos naturais de Pontevedra: Paio Gomes Charino, cujo sepulcro apresenta em evidência as armas dos Soutomaior; Álvaro Paes, possível titular da casa na transição do século XIII para o XIV; e Alfonso Jofre Tenório, membro segundo da casa de Tenório, senhorio que pertenceu por sucessão hereditária, desde finais do século XIV, também aos Soutomaior. À luz dos considerandos das linhagens de antanho, só estes três nomes, entre a extensa lista dos trinta e três almirantes de Castilla, podem ser considerados como pertencentes àquela casa, logo pertencentes à «família» do Conde de Caminha, D. Pedro Álvares de Soutomaior.

O «mar português» de Pedro Colón (IV) – Cabotando a costa

 

Sistematizem-se por ora, os dados já levantados.

Para tal sugere-se uma breve viagem de cabotagem ao longo da costa atlântica portuguesa. Seguir-se-á o mapa de Fernão Álvares Seco, denominado “Portugal deitado”, datado de princípios do século XVII, talvez o mais antigo que se conhece a representar com elevado grau de fidelidade a fronteira marítima, permitindo uma aproximação mais fidedigna ao contorno existente no século XV, e hoje, em certos pontos, já adulterado. O objectivo será reconhecer em que medida, Pedro de Soutomaior, se relacionou familiarmente, com a geografia humana do litoral português.

 

Costa atlántica norte
Senhorios costeiros e fluviais em Portugal / Norte (2ª metade do século XV)

Caminha: aqui recebeu Pedro, por dote matrimonial, os direitos da moeda velha detidos pelos Távora; em 1475 recebeu igualmente, a mercê do seu condado.

Viana da Foz do Lima (actual Viana do Castelo): pertença de seu concunhado D. Pedro de Meneses, marquês de Vila Real, casado na casa de Bragança.

Ponte de Lima: limite navegável do rio Lima, era vila dominada por Leonel e João de Lima, viscondes de Vila Nova de Cerveira, seus parentes próximos e também, respectivamente, tio materno e primo co-irmão de Teresa de Távora.

Esposende, Fão e Vila do Conde: pertença da casa ducal de Bragança. Pela ligação que manteve com o primogénito D. Afonso – de que nasceu um filho – Brites de Sousa, prima co-irmã de Teresa de Távora, era tia paterna de todos os filhos de D. Fernando, o segundo duque de Bragança.

Matosinhos, Gaia e Porto: toda a região da foz do Douro era dominada por João Rodrigues de Sá, alcaide-mor da cidade, sobrinho de seu irmão João Gonçalves de Miranda Soutomaior. Sigue leyendo O «mar português» de Pedro Colón (IV) – Cabotando a costa

O «mar português» de Pedro Colón (III) – Cunhados e amigos

Alianças matrimoniais da Casa de Távora – Séc. XV

No apoio ao regresso vitorioso de Pedro Madruga à Galiza, Vasco da Ponte alude também aos cunhados, deduzindo-se que se refere, naturalmente, às relações familiares pós-matrimoniais, estabelecidas com a família de Teresa de Távora. Faz sentido, que nesse âmbito se incluam também os tios – paternos e maternos – , para que se possa construir um breve panorama do meio em que se inseria a casa de Távora, na segunda metade do século XV. Sigue leyendo O «mar português» de Pedro Colón (III) – Cunhados e amigos